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Rondonópolis-MT: Elementos de sua História

terça-feira, 15 de maio de 2007 · 0 comentários


RONDONÓPOLIS-MT: ELEMENTOS DE SUA HISTÓRIA

Para a elaboração deste breve histórico sobre o município de Rondonópolis, Estado de Mato Grosso, busquei referências em estudos realizados por professores pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Universitário de Rondonópolis. Entre eles, estão os estudos da Drª. Maria Elsa Markus, Dr. Paulo Augusto Mário Isaac, Dr. Flávio Antônio da Silva Nascimento, Ms. Plínio José Feix e Drª Luci Léa Lopes Martins Tesoro.
Rondonópolis é um município que está situado na região Sudeste de Mato Grosso. Tem uma extensão territorial de 4.165 km2, e atualmente possui uma população aproximada de cento e oitenta mil habitantes.
Segundo estudos realizados no Sítio Arqueológico Ferraz Egreja, os primeiros sinais de vida em terras que hoje pertencem ao município de Rondonópolis datam de pelo menos cinco mil anos atrás.
Quanto à ocupação mais recente, de acordo com Luci Léa Lopes Martins Tesoro, no ano de mil novecentos e quinze, Joaquim da Costa Marques, então Presidente da Província de Mato Grosso, promulgou o Decreto Lei nº. 395, que estabelecia uma reserva de 2.000 hectares para o patrimônio da povoação do Rio Vermelho.
O povoado Rio Vermelho foi elevado a distrito em dez de agosto de mil novecentos e quinze, ocorrendo a sua emancipação política em dez de dezembro, de mil novecentos e cinqüenta e três, que foi regulamentada pela Lei Municipal 2.777, de 22 de outubro de 1997 .
À época, o lugar era povoado por índios Bororo, quando passou a ocupá-lo também um destacamento militar na localidade de Ponte de Pedra, assim como passou a ser procurado por pessoas que vinham para a região em busca de riquezas, terra e trabalho.
Rondonópolis é considerada hoje o terceiro maior município de Mato Grosso. É tido como o município mais desenvolvido economicamente. Contudo, alguns dos estudos consultados dão conta que uma vasta extensão de terra está nas mãos de grandes latifundiários, enquanto a maioria da população é esquecida, inclusive pelo poder público, que deveria, pelo menos, prestar-lhe maior e melhor assistência. Por outro lado, são inúmeras também as problemáticas urbanas: nem todos têm acesso à água tratada, à moradia, à educação, à saúde, ao transporte etc.
É nesse contexto que as diferenças entre as classes que o compõem vão tornando-se visíveis, o que no município tem engendrado as lutas de classes, colocando em lados opostos interesses antagônicos, dando visibilidade a lutas sociais e políticas, que têm envolvido trabalhadores rurais e urbanos, levando-os a se juntarem em certos momentos para lutar por direitos, tais como o direito de acesso à terra, pelo direito ao trabalho, à saúde, ao seu bem-estar e da sua família, a melhores salários etc.
Como teria sido a passado dessa região? Em que medida ele pode contribuir para que entendamos esse presente de tensões?
Segundo pesquisa realizada por Paulo Augusto Mário Isaac , quando os primeiros colonizadores chegaram à região Sudeste de Mato Grosso, no Século XVII, encontraram aqui os “aborígines”, aos quais deram várias denominações, tais como Porrudos, Coxiponeses, Cabaçais, Coroados, Orarimugadoge e a denominação de Bororo.
Entretanto, sobre a origem do povo Bororo não se tem nada comprovado. Alguns pesquisadores supõem que eles tenham vindo do Rio Negro, passando pela Bolívia, devido a sua linguagem e aos seus adornos, que são iguais aos que são usados na região citada.
Em resultado obtido por pesquisas arqueológicas realizadas em mil novecentos e oitenta e três, na Área Indígena Tadarimana, ocupada pelo povo Bororo, Irmhild Wüst diz que
Dentro da reserva indígena e num raio de aproximadamente de 50 km, foram levantados até agora 29 sítios arqueológicos, 23 dos quais, sítios cerâmicos a céu aberto, 5 abrigos sob rocha e um sítio de arte rupestre a céu aberto .
Para Paulo Serpa ,
O processo de contato dos Bororos com a sociedade se desenvolve há três séculos e pode ser analisado em três etapas distintas. A primeira etapa inicia-se em meados do século XVIII com a descoberta do ouro na região de Cuiabá […] Essa etapa […] os bandeirantes […] promoveram várias expedições punitivas contra os Bororos […]. A segunda etapa desse processo se resume de contato de resume na ‘pacificação’ dos bororos […] Enfim, no século XIX são encerradas as expedições punitivas […] iniciou-se então, o processo de ‘civilização’ com a fundação das Colônias Militares, em mil e oitocentos e oitenta e sete, as colônias de Tereza Cristina e Isabel, ambas no Médio São Lourenço, em mil novecentos e em mil novecentos e dois as Colônias Salesianas, na área dos rios das Garças, das Mortes e Sangradouro. Em mil e novecentos e dez, a criação do S.P.I., consolidou-se o processo de ‘pacificação’ com o estabelecimento de áreas reservadas aos Bororos e a conseqüência ocupação do território tradicional pelas frentes de mineração e agropecuária. A terceira etapa se caracteriza pelo contato permanente com os elementos representantes das frentes de expansão. Essa é a etapa mais dolorosa do processo histórico do contato, quando os Bororos […] perderam seus territórios de exploração, sofreram uma depopulação inusitada e passaram a depender exclusivamente dos agentes da política indigenista oficial, por um lado pelo S.P.I. e posteriormente pela FUNAI e, por outro lado, pelos missionários salesianos. O resultado do processo de contato dos Bororo com os segmentos da sociedade nacional caracteriza-se pelo esbulho da maior parte do seu território tradicional e pela drástica redução de sua população.
No século XVIII, os Bororo ocupavam uma área de aproximadamente trezentos e cinqüenta mil quilômetros quadrados. No entanto, hoje seu território está reduzido a cinco áreas indígenas, num total de cento e quarenta e um mil e seiscentos e oitenta e um alqueires, situados em oito municípios do Estado de Mato Grosso.
Mas, a história do contato permanente dos “aborígines” da região de Rondonópolis com a população das frentes de expansão, teve início, de acordo com estudos consultados, em mil novecentos e dois, com a chegada de um grupo de pessoas vindas do estado de Goiás, grupo este que se instalou às margens do rio Vermelho, em um lugar denominado pelos migrantes, de “Vilarejo Rio Vermelho”, hoje Rondonópolis.
Em nível local, é bastante perceptível decorrências da ocupação branca no que se refere às populações indígenas aí presentes. Tomemos aqui como exemplo a Aldeia Indígena de Tadarimana, localizada no município de Rondonópolis, na bacia do rio Vermelho, às margens esquerda deste e do Rio Tadarimana, e à margem direita do Rio Jurigue. Com uma área de aproximadamente nove mil e setecentos e oitenta hectares, nela hoje vivem apenas duzentos e dois índios Bororo.
Se em toda sociedade há contradições, com os Bororo não é diferente. Atualmente, eles conseguiram um pouco de terra (não o suficiente). No entanto, segundo Paulo Augusto Mário Isaac, além dos riscos, do descaso das autoridades e de setores da população rondonopolitana, a área indígena citada, bem como a população ali residente, corre sérios riscos por práticas efetuadas por alguns índios dessa comunidade. Nela, foram constatados arrendamentos de terra para pequenos agricultores residentes na região de Rondonópolis, e também retiradas indiscriminadas de madeira e de bambu, problemas que, segundo o acima mencionado pesquisador, já em mil novecentos e noventa e cinco a FUNAI, órgão responsável pelo bem-estar dos índios, tinha conhecimento, sem ter, contudo, tomado as devidas providências para solucioná-los, “por fazer parte da política de funcionários do órgão encobrir ‘algumas irregularidades’ em troca de apoio político no órgão indigenista” .
Percebe-se, portanto, neste contexto, interesses de cunho particular imbricados em um órgão que deveria zelar pelo interesse e bem-estar dos índios da referida região. Lembrando em tempo que a comunidade indígena não se beneficiava com isso, pois a renda era apropriada apenas por alguns indivíduos.
Apesar do longo tempo que se passou da dita “pacificação” dos Bororo, estes ainda vivem no seu dia-a-dia a discriminação e a violência sofrida no passado, tanto física quanto moral, sendo tratados como seres diferentes dos outros seres humanos.
Podemos observar isso, quando índios Bororo vêm à cidade e ficam na Praça dos Carreiros (região central da cidade de Rondonópolis). A maioria das pessoas que por ali passa os olha com descaso, como que dizendo: “que degradante!”; “esse problema não é meu!”, esquecendo-se (muitas vezes, até desconhecendo), os reais motivos que levam os índios a viverem dessa maneira.
Há ainda mais um agravante, que é a expropriação de suas terras, a qual eles tentam resistir bravamente, enfrentando a ganância do mundo e dos interesses capitalistas.
Flávio Antônio da Silva Nascimento avalia que as origens do povoamento branco na região não estão completamente esclarecidas. Provavelmente, tenha ocorrido por volta de mil oitocentos e setenta e cinco, com a implantação de um destacamento militar. Mas há divergências entre os estudiosos de período sobre essa data, principalmente pela grande lacuna existente.
No tocante à ocupação branca, na avaliação de Plínio José Feix ,
O processo de ocupação da microrregião foi protagonizado, inicialmente, por três categorias de trabalhadores: os garimpeiros, que desenvolveram as atividades de extração do diamante, principalmente nos municípios de Poxoréu, Guiratinga e Itiquira; os pecuaristas, que desbravaram principalmente os cerrados para a criação de gado de corte; e os agricultores, que se fixaram em áreas de ‘terra de cultura’ para desenvolverem a agricultura familiar.
Para Carmem Lúcia Senra Itaborahi de Moura, “as primeiras famílias de agricultores se fixaram na atual cidade de Rondonópolis em 1902, que na época era distrito do município de Poxoréu, do qual se emancipou em 1953” .
Até a década de hum mil novecentos e quarenta, a migração de trabalhadores rurais vindos de outros estados foi um processo lento e espontâneo, pelo que consta em alguns estudos pesquisados. De acordo com estes, os migrantes vinham em busca do sonho de ficarem ricos, devido às descobertas de minas de ouro e pedras preciosas. Também na esperança de obterem um pedaço de terra, a fim de desenvolverem ali uma agricultura familiar. Em geral, eles eram pessoas pobres e viam nessa possibilidade de acesso à terra a chance de melhora de vida para si e suas famílias. Elas vinham também em busca de trabalho.
Na apreciação feita por Flávio Antônio da Silva Nascimento, percebe-se que ocorreram importantes transformações na região, na década de hum mil novecentos e quarenta, tais como melhoria nas estradas, estas que beneficiaram as comunicações e o fluxo de migração. Daí teve início o processo de colonizações públicas, por meio das quais os trabalhadores se estabeleceram na terra por meio de sua posse; e o processo de colonização privada, que era feito por empreendimentos particulares, o que se dava através da venda de pequenos lotes.
Esse processo de migração teria se dado por meio de várias frentes de expansão. A primeira, que vai de hum mil oitocentos e setenta e cinco a hum mil novecentos e quarenta, é denominada de Fase Pioneira, que foi marcada pela persistência dos “pioneiros”. Isso porque além de chegarem a um lugar “esmo”, encontraram nesta região a resistência indígena, apesar de os pioneiros, com sua força (arma de fogo), terem conseguido “liquidar” essa resistência, pelo menos o suficiente para fazê-los permanecer. Assim, eles conseguiram edificar neste local, um vilarejo, no intuito da realização dos seus próprios propósitos, dos quais a população indígena parece não ter feito parte.
É claro que eles não tiveram todos os seus sonhos realizados. No entanto, os migrantes que vieram para esta região na década de quarenta, puderam realizar e implantar muitos deles. Isto é, na década de um mil novecentos e quarenta, homens e mulheres, anônimos migrantes, possibilitaram o crescimento populacional (o que elevou Rondonópolis nos anos de hum mil novecentos e noventa à terceira cidade mais populosa do Estado de Mato Grosso); também, deram início ao crescimento econômico da região. Por exemplo: eles buscavam por terras de cultivo e para a criação de gado, e Rondonópolis correspondia a essa expectativa devido ao seu ecossistema.
Esse desenvolvimento teria ocorrido também, graças à atuação da Comissão Rondon, que tinha à sua frente o Marechal Cândido Rondon.
Além da instalação da linha telegráfica pela mesma, ela também contribuiu com a construção de uma estrada que ligava Goiás com Cuiabá. Daí, em hum mil novecentos e dezesseis, o povoado Rio Vermelho ter tido a sua primeira casa do comércio; em hum mil novecentos e vinte e dois, já com sua elevação a distrito e a mudança de seu nome (que de povoado Rio Vermelho passou a se chamar Rondonópolis em homenagem a Marechal Cândido Rondon), foi instalado aqui um ponto telegráfico, ocorrendo no ano de hum mil novecentos e vinte e quatro a primeira transmissão.
O primeiro diretor dessa estação teria sido Benjamim Rondon, filho do Marechal Cândido Rondon. Ele também foi responsável pela construção da primeira balsa, que era utilizada para fazer a travessia do Rio Vermelho, já que na época não havia uma ponte sobre o mesmo.
Em hum mil novecentos e quarenta e dois houve a construção de uma ponte sobre o Rio Vermelho, que logo foi levada pela enchente.
Apesar da melhora que a abertura de estrada trouxe para o povoado, este, contudo, passou por adversidades no final dos anos vinte e começo da década de trinta, tais como a estada dos “revolucionários” da Colona Prestes, que de acordo com registros consultados e com avaliações neles contidas, “saqueavam” em busca de alimentação; doenças como o “fogo selvagem”, que causou muitas mortes; enchentes; diminuição das atividades garimpeiras nas áreas próximas etc., causando o desaceleramento do crescimento populacional, na avaliação de alguns. Segundo Flávio Antônio Nascimento, em hum mil novecentos e vinte e cinco, o povoado tinha vinte e cinco pessoas, tendo ocorrido, portanto, um certo “esvaziamento” do lugar.
Contudo, no final dos anos de hum mil novecentos e quarenta foram implantadas nesta microrregião várias colônias agrícolas. Daí até hum mil novecentos e sessenta, houve um intenso movimento migratório para a mesma. Grandes proprietários de terra vieram de outros estados em busca de terra barata. Além desses, vieram outros migrantes. A maior parte deles era de trabalhadores rurais pobres, vindos do interior do Nordeste, do Sudeste, do Sul, que vinham, na visão de alguns pesquisadores, em busca de terra, mas o que a maioria deles conseguiu foi tornar-se apenas mão-de-obra barata.
Esse período teria sido a fase do capitalismo mercantil, que, segundo Plínio José Feix, “extraía parcela da renda dos trabalhadores rurais através de transações comerciais e que exigia deles, assim, um sobretrabalho para garantir sua sobrevivência” .
Na realidade, essa era a principal forma de subordinação e de exploração dos pequenos produtores e trabalhadores rurais, solidificando cada vez mais a apropriação, pelos capitalistas, das terras aqui existentes. Ou seja, os capitalistas recebiam terras doadas pelo governo ou compradas por preços irrisórios, tornando-se grandes latifundiários na região.
Houve aí, portanto, uma intensificação da migração; da apropriação privada de terras e do desenvolvimento econômico e social da região. Esse movimento ficou conhecido como a Fase de Fronteira Agrícola.
É claro que a ação do Estado foi de fundamental importância para a ocupação e desenvolvimento socioeconômico da microrregião aqui tratada, pois já com a “Marcha para o Oeste” o governo doava terras, principalmente para a iniciativa privada.
Neste contexto, na avaliação de alguns estudiosos, o que teria favorecido o crescimento da economia foi a construção de estradas, pois Rondonópolis estava situada em uma posição geográfica privilegiada. Assim, tornou-se entroncamento de duas rodovias - uma ligando Cuiabá – Rondonópolis – Campo Grande (atual BR 163), e outra ligando Cuiabá – Rondonópolis – Goiás (atual BR 364).
Já, o período entre hum mil novecentos e sessenta e hum mil novecentos e oitenta, conhecido como Frente de Integração Econômica, teve como principal característica o processo de expansão do capitalismo na agricultura, com grande concentração de terras nas mãos de empresários, o que gerou maior aceleração na ocupação do território e que trouxe consigo a chamada “modernização”, que acabou por “revolucionar” a agricultura e a pecuária, que contaram com incentivos governamentais, por intermédio de programas, tais como: POLOCENTRO, SUDAM, PRODOEST, PROTERRA.
O maior impulso para o desenvolvimento foi o cultivo da soja, iniciado na década de setenta, tornando-se o principal produto de exportação. Isso se deve principalmente à inovação tecnológica na produção, o que fez com que a região desenvolvesse relações comerciais nesse setor com outros setores da economia, relações essas em nível local, regional e internacional.
Rondonópolis se tornou um dos municípios de grandes plantações de soja, do Estado de Mato Grosso, o que pode ser constatado em épocas de plantio, pois até em regiões como a que liga Guiratinga a Barra do Garças, onde até pouco tempo atrás se via apenas plantações de arroz e feijão, hoje, praticamente só se vê o verde da soja.
A inovação tecnológica na produção fez com que a partir daí ocorresse a supervalorização da terra. Com isso, os posseiros acabaram por ser expulsos da mesma, o que levou muitos desses trabalhadores rurais para a cidade de Rondonópolis, agravando ainda mais os problemas sociais já existentes.
Nessa época, até mesmo pela abundância de mão-de-obra, chegou a ser praticada a escravidão por dívidas, prática realizada em muitas grandes fazendas. Aliás, ainda hoje não é incomum a constatação desse tipo de escravidão no estado de Mato Grosso.
É nesse processo de desenvolvimento do capitalismo que se agravaram ainda mais as contradições geradas por este sistema em Rondonópolis, como avalia Maria Elsa Markus, ao dizer que, nesse contexto,
ganha importância […] a questão urbana, por conta do seu agravamento em Rondonópolis, no mesmo período, principalmente com o aumento populacional, que não vem sendo acompanhado, na mesma medida, de garantias necessárias à inclusão social […] o desemprego, o subemprego, a falta de moradia, de saneamento básico, de acesso à escola […] a saúde pública está longe de assegurar as condições mais elementares àqueles que demandam os seus serviços; há um aumento assustador da criminalidade, do tráfico de drogas, da prostituição; o salário é humilhante […] sem esquecer a acintosa existência de nichos de prosperidade e riqueza que, não se há de ter dúvida, contemplam uma minoria de pessoas, através do aviltamento da minoria.
Muitos desses aspectos acima situados para serem constatados basta ir até a região central de Rondonópolis, onde durante o dia há um crescimento cada vez maior de pessoas mendigando; à noite é possível ver jovens se prostituindo e fazendo uso de drogas. Isso se deve principalmente à má distribuição de renda, ou seja, um grande acúmulo de riqueza nas mãos de poucos, enquanto a maioria perece, como se não fizesse parte dessa sociedade.
Para Plínio Feix, “a questão agrária e a questão urbana são as duas questões sociais mais explosivas na microrregião de Rondonópolis”.
Com pouco mais de 50 anos de emancipação político-administrativa, com uma população aproximada de 180 mil habitantes, Rondonópolis se tornou conhecida como a “Capital Nacional do Agronegócio”.
No entanto, o modelo de desenvolvimento praticado na região tem trazido benefícios para os empresários capitalistas e acentuado cada vez mais a exclusão social, pois enquanto o agronegócio tem estado em franca expansão nesses últimos anos, na periferia da cidade surgem, a cada dia, bairros carentes, sem nenhuma infra-estrutura.
Maria Aparecida Gonçalves
Graduada em História pela UFMT/CUR

Falando um pouco sobre religião

segunda-feira, 14 de maio de 2007 · 0 comentários

ROMARIA DOS MÁRTIRES: ORIGENS E ALGUNS SIGNIFICADOS

“Mártir é aquele que dá um sinal extremo de sua fé em Deus e testemunho de amor aos seus irmãos até o sacrifício extremo, sendo o testemunho o que permanece fiel até o fim”.
(Pe. Giovane Pereira de Melo)

Na América Latina, desde o início de sua dita “colonização” (processo que ainda hoje é avaliado como em andamento), o martírio se tornou um grito tanto pela vida quanto pela fé. Devido a isso, a Igreja Católica tem buscado manter sempre viva a memória de mártires que deram suas vidas na tentativa de mudar a realidade das pessoas menos favorecidas da sociedade.
É neste contexto que passou a ser realizada, a partir de hum mil novecentos e noventa e dois, em Rondonópolis-MT, a Romaria dos Mártires, que vem constituindo-se como mais uma forma de manifestação pública da fé religiosa. Mas não só, como poderemos ver mais adiante.
As romarias estão construídas simbolicamente dentro do sistema de significações do imaginário tradicional da religiosidade popular, compartilhando, no meu entendimento, das mesmas significações da procissão.
Em Rondonópolis – MT, ela acrescenta o fato social de congregar pessoas de diversos grupos sociais, inclusive de lugares diferentes e até mesmo distantes, reunindo pessoas de toda a micro-região, e não necessariamente só católicos.
Castro M. Bartolomé Ruiz define a romaria como “um espaço social de encontro de diversos grupos, e por isso é um espaço de transmissão e partilha de imaginários, símbolos e significados” .
Com o passar do tempo, tal como na religião, nas romarias também foram acontecendo transformações. Assim, “Foram organizadas romarias novas para símbolos novos: Romaria de Canudos, Romaria de Zumbi, Romaria da cana, Romaria da terra, Romaria do trabalho etc.” Acrescente-se a essas, a Romaria dos Mártires, que é uma homenagens aos religiosos e leigos assassinados por seu engajamento em lutas sociais e políticas em prol dos menos favorecidos, isto é, em causa dos oprimidos e dos excluídos.
Os Mártires lembrados pela Igreja Católica no Brasil e, em especial, pela Diocese de Rondonópolis-MT, quando da realização da Romaria dos Mártires, são aqueles que deram sua vida pelas causas dos acima mencionados, como, portanto, ocorre noutros lugares do país.
Como sabemos, a cada ano surgem novos conflitos no campo, entre os latifundiários e os excluídos da terra. E é nesses processos, por exemplo, que ganham visibilidade essas pessoas - os mártires, religiosos ou não, que arriscam suas vidas, confrontando, denunciando, organizando etc., e assim buscando sanar ou ao menos amenizar esses conflitos.
Muitas dessas pessoas são perseguidas, torturadas, assassinadas, uma maneira não só de conter a luta, mas de desaconselhar a tantos outros que possam querer dela fazer parte.
Em vista disso, minha Monografia servirá também para manter viva a memória desses lutadores, pessoas essas que protagonizam ações, tomam iniciativa em lutas a favor dos injustiçados.
O Professor Ivanildo José Ferreira em entrevista que me concedeu, contou-me que no ano de hum mil novecentos e noventa e dois, quando se deu a primeira Romaria dos Mártires em Rondonópolis, haviam muitas questões envolvendo trabalhadores em luta pela posse e permanência na terra, assim como questões indígenas latentes, como a busca de garantia de seus territórios, de dignidade às suas sobrevivências etc.
Nesse sentido, percebe-se que os temas que têm norteado ao longo dos anos a ocorrência da Romaria dos Mártires, vêm sempre buscando dar um enfoque maior às questões que procuram fortalecer as lutas sociais e políticas.
Segundo o Professor Ivanildo
"Só para se ter uma idéia, aqui, o primeiro grande assentamento na zona rural tinha sido a Gleba Rio Vermelho. Logo depois a Cascata, Várzea do Ouro, enfim. Mas, assim, de movimento grande foi a Gleba Rio Vermelho, que tinha mais ou menos quatro anos de assentados. Essas primeiras Romarias tentaram fortalecer esses movimentos. E até me parece que valeu: o número de assentamentos que a gente tem aqui na região é muito grande".
Portanto, se no seio desses movimentos pela terra se gestaram tantos mártires, lembrá-los, a exemplo do que acontece na Romaria, é manter acesa a chama da luta, que, pelo que se pode entender da fala do Prof. Ivanildo, tem dado resultados, posto que muitos trabalhadores vêm conquistando um pedacinho de chão.
Assim, pode-se dizer que a Romaria dos Mártires tem como uma de suas finalidades lembrar às pessoas que dela participam, aqueles (as) que morreram em defesa da vida de outros; lembrar que Mártires são aqueles que não desistem da luta por uma vida melhor para seus semelhantes, mesmo que isso signifique morrer por esse ideal.
A Igreja Católica tem valorizado a presença desses mártires na construção de sua trajetória, o que é visível na Diocese de Rondonópolis, através das paróquias que a compõem, que buscam também avivar por meio da Romaria dos Mártires a memória dos seus fiéis, pois um povo sem memória é um povo sem identidades, sem resistência e sem história. É uma maneira de não deixar cair no esquecimento esses que tanto merecem homenagem e respeito pelo desempenho que tiveram em lutas coletivas por justiça social. Quem sabe assim, por meio dos exemplos deixados pelos Mártires ali homenageados, mantenha-se acesa a chama da solidariedade entre as pessoas, que estão cada vez mais distantes umas das outras, cada uma vivendo por si, sem preocupar-se com o seu semelhante.
Castro M. Bartolomé Ruiz pondera que as romarias “são constituídas com a significação de unir a fé com o compromisso social e político.” Isso é perceptível na Romaria dos Mártires, pois quem dela participa pode observar o caráter religioso, social e político que a compõem através dos grupos ali reunidos, tais como as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), etnias indígenas, sindicatos e outros movimentos sociais e entidades organizadas. Também se percebe a presença de políticos, alguns por serem ligados a algum movimento social ou a grupos da Igreja Católica, e outros somente com o interesse de marcar presença em um evento que tem grande repercussão na imprensa, e que, obviamente, reúne um significativo número de eleitores.
Mas, como surgiu a Romaria dos Mártires? Onde e quando teria tido início? Busquei essa resposta junto ao padre Giovane Pereira de Melo. Perguntei a ele se há algum livro que fale sobre o assunto. Contudo, ele não pode me precisar. No entanto, conversando com a professora da disciplina Monografia, Drª Laci Maria Araújo Alves, ela me disse que possuía um livro que mencionava os mártires e que falava sobre a primeira manifestação que se tornaria a Romaria dos Mártires.
Foi assim que tomei contato com o livro “Descalço sobre a terra vermelha”, de Francesc Escribano. Nele, o autor conta a vida de Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, estado de Mato Grosso. Também registra a morte de alguns religiosos, tais como padre Rodolfo Lunkenbein, Padre João Bosco Penido Burnier, eles que foram amigos de Dom Pedro.
Francesc Escribano diz que o
"povo de Ribeirão quis celebrar a missa de sétimo dia [da morte de padre João Bosco em 1976]. Depois da missa, fizeram uma procissão, que acabou na porta da delegacia na qual haviam sido torturado as duas mulheres e onde atiraram contra o sacerdote […] Os participantes da procissão derrubaram a delegacia e levantaram uma cruz em memória de João Bosco. Atualmente, a cruz está num local mais visível da cidade, ao lado da igreja de Ribeirão […] [que se] transformou no ‘Santuário dos Mártires da Caminhada’ "
Parece ter sido dessa manifestação pública que teria se dado início à realização da Romaria dos Mártires pela Igreja Católica. Busquei outras fontes, mas não consegui encontrar nada a respeito, o que deixo como sugestão a futuras pesquisas.
O Professor Ivanildo José Ferreira disse que também não saberia dizer como a Romaria dos Mártires teria tido início em nível de Brasil. Contudo, ponderou que ela vem acontecendo em lugares onde têm ocorrido grandes conflitos, principalmente de terra. Lembrou de mortes acontecidas na região centro-oeste, como em Mato Grosso a morte do padre João Bosco Burnier; do padre Josimo Morais Tavares, no atual estado de Tocantins (que na época de sua morte era território de Goiás).
Lembrou ele ainda, que nas décadas de 1970 e 1980, no Brasil como um todo e também, de modo particular, no nosso município, havia inúmeros conflitos ligados a questões da terra e que houve muitas pessoas que se destacaram em lutas específicas, seja pelo direito de acesso à terra, à cidadania ou a outros direitos (lembremo-nos que, nesse período, viva-se no Brasil o regime militar, marcado pela perda de liberdades políticas, onde torturas, assassinatos, exílios compunham uma triste rotina).
Fazer romaria é uma tradição antiga em todas as religiões, culturas, povos e raças. Pode-se dizer que nas romarias estão imbricados temas culturais, sociais, políticos etc. Todas as romarias têm sempre um objetivo a alcançar, um sonho a realizar, uma meta a atingir.
A Romaria dos Mártires também se articula à Campanha da Fraternidade, à medida que todos os anos adota o lema que é trabalhado durante a mesma, que está sempre ligado a alguma problemática social.
Na trajetória percorrida pela Romaria dos Mártires, as multidões caminham, levam seus símbolos, tais como velas; água; rosário; imagens de santos etc.
Como participante, lembro que quando teve início, na década passada, rezava-se a dezena do terço, e em cada dezena se buscava refletir e responder a expectativas dos cristãos católicos. Durante o percurso, clama-se por justiça através da Palavra; dos cantos que são escolhidos, coerentes com suas temáticas; do teatro que é apresentado, a exemplo do que ocorreu em 2006 durante a procissão, com encenação da morte da Irmã Dorothy Stang, feita por jovens da Diocese. Enfim, de maneira geral, pode-se dizer que tudo que acontece durante a Romaria, os diferentes rituais que a compõem, tudo está ligado às problemáticas da terra, das mulheres, dos indígenas, dos negros, dos deficientes, dos idosos, dos jovens, do meio ambiente, das crianças etc.
A Romaria dos Mártires é uma experiência significativa, pois os romeiros podem demonstrar seus sonhos e expressar a sua realidade. É claro que cada pessoa tem um motivo particular que a impulsiona para essa caminhada, como dona Raulina Medeiros Quedes, 59 anos, moradora no Bairro Santa Cruz, participante desde a primeira Romaria dos Mártires que aconteceu em Rondonópolis, no ano de hum mil novecentos e noventa e dois. Disse-me ela:
"eu gosto muito de participar dos movimentos, assim da Igreja, que é uma maneira de demonstrar aquele sentimento né? que a gente tem pelas pessoas que doaram suas vidas pelo bem da humanidade. Então, isso traiz assim pela época da Quaresma, é uma época de penitência, então, a gente faz um pouco também como penitência né? Então eu acredito que é um momento que a gente tira pra dar um testemunho da fé que a gente tem"
Portanto, para ela, a Romaria dos Mártires é um momento de expressão da própria fé, no tocante ao respeito a elementos da tradição católica, e também uma expressão de reconhecimento àqueles que doam suas vidas na luta pelos seus semelhantes.
Dona Maria Beltrame, 40 anos, moradora no Bairro São Sebastião, falou-me que participa da Romaria há oito anos, porque “É um pouquinho de muitas coisas, por exemplo, a caminhada a gente encontra muitas pessoas, de muitos lugares.” Sobressai na sua fala essa pluralidade de lugares de onde vêem muitas pessoas, o que demonstra que a Romaria dos Mártires realizada em Rondonópolis – MT, extrapolou os limites do município.
O jovem José Carlos Souza Costa, 19 anos, é uma dessas pessoas que vem de um outro município para participar da Romaria dos Mártires.
Morador em Juscimeira, estado de Mato Grosso, ele me disse que participa há dez anos. Tem como objetivo com essa participação “Se unir em prol da comunidade, em prol das pessoas que precisa da nossa ajuda, fazer uma revolução como os jovens fizeram nos anos 80 e fazer mudar. Isso hoje precisa ser mudado entre as pessoas”.
Percebe-se na fala de José Carlos uma dimensão mais política na razão que o motiva a participar. Ao falar de “revolução” dos jovens nos anos 80, pode ser que esteja referindo-se à participação estudantil, por exemplo, no processo de redemocratização do Brasil, que foi muito significativa.
A Romaria dos Mártires, pelo que também pode ser percebido na fala de José Carlos, não é apenas um agrupamento de pessoas dispersas, se bem que têm muitos que vão apenas fazer um passeio; outros, para namorar, encontrar conhecidos; outros para “fazer política”, por intermédio do encontro com seus eleitores; outros por razões exclusivamente religiosas etc. Portanto, as motivações até podem ser variadas, mas há uma clara demonstração de fé, de sonhos e de esperanças, ainda que não seja de todos.

Maria Aparecida Gonçalves
Graduada em História pela UFMT/CUR

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