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Fundação de Roma: A Lenda

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CONHECENDO UM POUCO DE RONDONÓPOLIS E SEUS ASPECTOS HISTÓRICOS

domingo, 7 de novembro de 2010 · 2 comentários

CAPÍTULO I

Índios Bororos

Rondonópolis é um município que está situado na região Sudeste de Mato Grosso. Tem uma extensão territorial de 4.165 km2, e atualmente possui uma população aproximada de cento e oitenta mil habitantes.

A região de Rondonópolis inicialmente era habitada pelos índios da tribo Bororo dos quais ainda hoje existem alguns remanescentes. Segundo estudos feitos sobre a origem do povo Bororo (ver figura 01) não se tem nada realmente comprovado.

Quando os brancos tiveram os primeiros contatos com os bororos, ouviram com freqüência, diversos cânticos de bacuroro, cujo significado e cerimonial seguidas vezes, era pronunciada a palavra bororo. Os bororos mesmos, na verdade, se autodenominam de aroe boe.

Características do povo Bororo.

As características físicas e mesmo espirituais do bororo não diferem praticamente em nada das tradicionalmente conhecidas dos indivíduos de grandes nações indígenas.

Aspectos Culturais do Bororo.

Um dos aspectos de sobremaneira importância abordados no trabalho de Aylon do Carmo são sem dúvida, a formação sócio cultural do bororo, seus costumes e tradições. Veremos esses aspectos a seguir.

A ALDEIA

A aldeia bororo original tem a forma circular eram e ainda são feitas de esteios de madeira e cobertas de palha de coqueiro babaçu, as paredes de folhas de babaçu trançadas; os esteios e o teto eram feitos pelos homens; as paredes, pelas mulheres, as casas ou tendas são dispostas em circulo, observando todas as mesmas distâncias entre si.

Os moradores da aldeia são divididos em duas partes os ecerae, localizados ao norte, e os tigarege ao sul da aldeia, em cada parte existem quatro clãs, sem o tamanho da aldeia. Todos tem o seu lugar marcado e suas obrigações, nas cerimônias, seus próprios adornos, seus respectivos nomes e seus cantos.

As vestimentas primitivas dos bororos seguiam os critérios de seus próprios clãs: uns de palha com adornos de plumagem de aves.

OS CACIQUES

A palavra cacique há longos anos não faz parte do dicionário bororo e talvez nem mesmo tenha feito parte dele algum dia.

Após as invasões das terras dos índios pelos brancos e também com a interferência militar nas reservas dos mesmos, o líder ou chefe bororo passou a ser chamado de capitão, o próprio Rondon dava esse tratamento aos líderes bororos de nossa terra.

OS RITUAIS

Os bororos sempre tiveram preservadas as suas origens, sempre terão uma vida intensa de cerimoniais, pois eles sempre foram a razão máxima de sua existência; é através deles que mantêm o equilíbrio social,encontram a paz,evocam a natureza,os deuses e os espíritos dos seus antepassados.

O BATISMO

O batismo entre os bororos, assim como em todas as demais civilizações, e um ato ou cerimonial de cunho religioso. divergindo entre si, contudo,no aspecto do ritual;o cerimonial bororo do batismo é celebrado pelo bari, na ars denominada bororo.

A cerimônia do batismo bororo é sempre realizada a noite e termina pela manhã, as crianças usarão vestimentas e adornos de acordo com o seu próprio clã; o Bari utiliza plantas e ervas que ele entende próprias para invocar a presença dos espíritos,e de acordo com a crendice,ele conversa com os espíritos atrás dos cânticos; todos os clãs rendem homenagens aos batizandos, em especial aos próprios do clã, ao final da cerimônia, ou seja já pela manhã, servem-se comida e bebida.

O CASAMENTO

Os moradores da parte norte só podiam e ainda hoje só podem se casar com os outros da parte sul, e vice-versa; não se trata bem de um ‘casamento’, um ato de conotação ‘oficial’; um bororo passa a gostar de uma borora – que tem de ser necessariamente do lado oposto ao seu.

O FUNERAL

Há muitos outros cerimoniais festivos entre os bororos, dentre eles o do milho novo, da preparação para a caçada ou pescaria, da festa odo couro da onça, do gavião real, do matador da onça o que tem mais significado e riqueza de detalhes, porém, é o funeral, com tem de um a três meses de duração.

Inicia-se coma anunciação, a toda a aldeia da morte do individuo, que seu corpo exposto, todo coberto de palha; os mais novos da tribo, rapidamente preparam uma cova rasa no próprio pátio onde mesmo é enterrado; os pertences do morto, inclusive a sua casa, são todos destruídos e queimados, após o seu sepultamento na cova rasa; a viúva e os filhos voltarão para a casa dos seu pais, ou para o seu clã.

Quanto a origem do povo Bororo, pesquisadores supõem que eles podem ter vindo do Rio Negro, passando pelo território Boliviano, devido a sua linguagem e aos seus adornos, que são semelhantes aos usados na Bolívia.

Em pesquisas arqueológicas realizadas em 1983, na Área Indígena Tadarimana, ocupada pelo povo Bororo, pesquisadores citam que:

Dentro da reserva indígena e num raio de aproximadamente de 50 km, foram levantados até agora 29 sítios arqueológicos, 23 dos quais, sítios cerâmicos a céu aberto, cinco abrigos sob rocha e um sítio de arte rupestre a céu aberto.

O processo de contato dos índios Bororos com a sociedade se desenvolve há pelo menos três séculos.

A primeira etapa inicia-se em meados do século XVIII com a descoberta do ouro na região de Cuiabá, sendo que nesta etapa, os bandeirantes promoveram várias expedições punitivas contra os índios Bororos.

A segunda etapa desse processo se resume na ‘pacificação’ dos índios Bororos.

Enfim, no século XIX são encerradas as expedições punitivas e iniciou-se então, o processo de ‘civilização’ com a fundação das Colônias Militares, em 1887, as colônias de Tereza Cristina e Isabel, ambas no Médio São Lourenço, em 1900 e 1902, as Colônias Salesianas, na área dos rios das Garças, das Mortes e Sangradouro.

Em 1910, a criação do S.P.I. (SERVIÇO DE PROTEÇÃO AO ÍNDIO), consolidando-se o processo de ‘pacificação’ com o estabelecimento de áreas reservadas aos Bororos e a conseqüência ocupação do território tradicional pelas frentes de mineração e agropecuária.

A terceira etapa é a mais dolorosa do processo histórico do contato. No século XVIII, os Bororos ocupavam uma área de aproximadamente trezentos e cinqüenta mil quilômetros quadrados. No entanto, hoje seu território está reduzido a cinco áreas indígenas, num total de cento e quarenta e um mil e seiscentos e oitenta e um alqueires, situados em oito municípios do Estado de Mato Grosso. Por último, chegaram as expedições da comissão Construtora das Linhas Telegráficas.

Mas, a história do contato permanente dos “aborígines” da região de Rondonópolis com a população das frentes de expansão, teve início, de acordo com estudos consultados, em mil novecentos e dois, com a chegada de um grupo de pessoas vindas do estado de Goiás, grupo este que se instalou às margens do rio Vermelho, em um lugar denominado pelos migrantes, de “Vilarejo Rio Vermelho”, hoje Rondonópolis.

O resultado deste processo de contato dos Bororos com os segmentos da sociedade nacional caracteriza-se pelo esbulho da maior parte do seu território tradicional e pela drástica redução de sua população.

Apesar do longo tempo que se passou da dita “pacificação” dos Bororo, estes ainda vivem no seu dia-a-dia a discriminação e a violência sofrida no passado, tanto física quanto moral, sendo tratados como seres diferentes dos outros seres humanos.

Podemos observar isso, quando índios Bororos vêm à cidade e ficam na Praça dos Carreiros (região central da cidade de Rondonópolis). A maioria das pessoas que por ali passa os olha com descaso, como que dizendo: “que degradante!”; “esse problema não é meu!”, esquecendo-se (muitas vezes, até desconhecendo), os reais motivos que levam os índios a viverem dessa maneira.

A nação bororo teve grandes caciques guerreiros ao longo de sua historia. Seu mais ilustre descendente brilhou tanto que se tornou impossível ofuscar o esplendor de sua luz.

Malagueta

Malagueta foi o mais popular índio bororo de nossa região, ele foi apelidado pelos brancos que eram pioneiros, malagueta bebia muito era um encrenqueiro de primeira.

Quando malagueta nasceu sua mãe teve um sonho ruim, que foi relacionado ao nascimento de malagueta, pelo seu pajé que o condenou a morte. Sua mãe inconformada com a condição resolveu fugir, e, perambulando viveram por muitos lugares mais sempre em nossa região, hoje em Rondonópolis. Sua mãe, que ele tinha como única amiga vivia sempre ao seu lado embriagado.

A morte de Malagueta

Não se sabe bem, a sua morte é um mistério, pois, em respeito os índios não falam de seus mortos, mas relatos de brancos moradores da época disseram que após varias falhas de malagueta, ele foi morto pelos índios de sua própria aldeia, por um processo de asfixia muito cruel.

Outro descendente de Bororo e reconhecido mundialmente é o Marechal Cândido Rondon


CAPITÚLO II

Rondonópolis e seus aspectos históricos – (1902 – 1928)

Quando os primeiros colonizadores chegaram aqui, os índios Bororos chamavam o Rio Vermelho de Poguba que significa “vasta região habitada pelo pássaro conhecido por verão”, denominada cientificamente por Pyrocephalus runinus rubinus.

Hoje, este local é um complexo ambiental denominado Parque das águas, que é formado pelo Rio Vermelho; antiga Vila Seo Moisés – hoje chamada de Casario; o Cais (onde nasceu a primeira Rua de Rondonópolis).

Pode-se dizer que o inicio do desenvolvimento urbano de Rondonópolis se deu a partir desse lugar, em 1912.

Entretanto, o povoamento propriamente veio a acontecer a partir de 1902, quando ocorre a fixação de famílias procedentes de Goiás, Cuiabá e outras regiões do Estado, e que são os responsáveis pela construção do então “Povoado do Rio Vermelho”.

Sabe-se que, em 1915, havia aproximadamente 70 família com alguma organização econômica, social, política e preocupação com a educação.

Em 10 de agosto do mesmo ano, o então presidente do Estado de MT, Joaquim da costa marques, promulga o Decreto nº395, que reserva “uma área de 2.000 hectares para o início da povoação do rio Vermelho”.

Sobre o surgimento de Rondonópolis, a historiadora Drª. Laci Maria Araujo Alves, diz que segundo dona Nair Lopes Esteves, uma das pioneiras, Rondonópolis surgiu por volta de 1902, com a chegada do Sr. Manuel Conrado que saiu de Palmeiras - Goiás, em busca de seu irmão Firmino.

Outro pioneiro de Rondonópolis foi o senhor José Rodrigues, que chegou em Rondonópolis com um grupo de pessoas que passaram por Capim Branco e continuaram fazendo picadas ate encontrarem seu irmão que se encontrava as margens do rio Poguba, onde se fixaram e organizaram o Povoado Rio Vermelho.

O Sr. José Rodrigues desempenhou o papel de líder no povoado, isso em virtude da liderança adquirida como político em Palmeiras.

No aspecto educacional, podemos observar que apesar das dificuldades existentes à época, uma de suas preocupações ao se deslocar para uma região desconhecida foi de convidar um professor para acompanhar sua família – o professor João Caetano.

Ainda segundo dona Nair Lopes Esteves, nessa época, por volta de 1906, a educação brasileira passava por várias mudanças em decorrência das novas correntes pedagógicas que surgiram nos Estados Unidos e na Europa e da necessidade de se organizar um sistema de ensino e expandir a escolarização no Brasil.

Devido às dificuldades que a escola pública atravessava, era comum nas famílias mais abastardas a contratação de um professor particular que, na maioria das vezes moravam na própria residência da família contratante, sendo a chamada fase da educação domiciliar.

Naquela época as aulas eram dadas nas casas das famílias, sendo assim, não havia carteiras, os bancos eram caixotes, pode-se dizer que lápis e cadernos eram matéria de luxo, pois não havia disponíveis à população.

“A lousa vinha de Cuiabá e era uma pedra que cada aluno tinha individualmente, sendo que possuía um formato de mais ou menos, 30x40 cm, emoldurada por uma madeira de meio centímetro de largura.

Já o giz, era confeccionado aqui mesmo com piçarra mole, que as pessoas amassavam enrolavam o barro na mão mesmo e colocavam pra secar, sendo que quando secava bem, esse bastão era colocado por alguns minutos no fogo, para endurecer, e estava pronto o giz.

No inicio o Sr. José Rodrigues (foto 02) buscava tudo o que era necessário na cidade de Cuiabá, sendo que ele enfrentava uma série de obstáculos, pois não havia estradas e a viagem era feita de carros de bois, e segundo Dona Nair, uma moradora daquela época, para se passar na serra de São Vicente, era preciso amarrar tudo e praticamente “jogar” serra abaixo, pois não havia outra forma de descê-la.

Mesmo assim todas as crianças do povoado, inclusive alguns índios, recebiam as noções básicas de ler, escrever e contar, além dos corriqueiros castigos como a palmatória e outros. “os professores tinham toda autoridade para castigar as crianças, aliás, era o pai quem fazia a palmatória e a entregava para a professa dizendo: ‘de hoje em diante, é a segunda mãe desse menino, portanto, também responsável pela educação dele’”.

Somente por volta de 1915, o Povoado de Rio Vermelho recebeu o primeiro professor nomeado pelo Estado: o professor Odorico Leocádio da Rosa, (foto 03) que ocupava o cargo de telegrafista, em função do trabalho de linhas telegráficas.

Inicia-se aí uma nova fase da educação em Rondonópolis, pois as aulas perdem seu caráter domiciliar e passam a ser realizadas em uma pequena escola, a escola Mista do Rio Vermelho.

A nomeação do professor e a aquisição de uma casa para o funcionamento das aulas foi o inicio da Escola Pública em Rondonópolis.

A escola funcionava em dois períodos e atendia aos alunos de toda região, dentre os quais vários índios Bororo, que tinham bom relacionamento com os moradores do povoado.

De acordo com a pesquisa feita pela a Drª. Laci com dona Carmelita Cury, apurou-se que de 1915 a 1922, o povoado recebeu varias melhorias, com abertura de uma estrada carroçável até Cuiabá, nomeação do 1º delegado - senhor José Rodrigues, a fundação de uma mesa eleitoral, presidida pelo senhor Benjamin Rondon – filho do marechal Rondon, só que, no entanto, a cidade não se desenvolveu naquele momento.

Em 1923, Rondonópolis recebe o professor Francisco Siqueira que também era inspetor.

Outro mestre que se destacou foi o professor Álvaro Feitosa, telegrafista, que havia trabalhado na construção da linha telegráfica de Tereza Cristina para Rondonópolis e foi o construtor da primeira balsa do rio vermelho.

Para a historiadora citada acima, outros que merecem ser lembrados são os professores Francisco Barbosa e Antonio Duarte.

Por volta de 1928, houve a nomeação do professor Joaquim Murta, que ministrou aulas do primeiro ao quinto ano. Contudo, a insalubridade, o excesso de mosquitos, a falta de medicamentos, a epidemia do fogo selvagem, a dificuldades na obtenção de mercadorias, e enfim, a falta de condições de sobrevivência no local provocou a mudança de muitas famílias para outras regiões.

Em 1930 o professor Joaquim Murta partiu para Poxoréu, ficando a cidade sem professor, sem juiz e sem delegado.

O cartório foi transferido para Poxoréu e Rondonópolis passou a condição de Distrito, pelo decreto-lei nº. 208, de 26 de outubro de 1938.

Rondonópolis começou a receber outros habitantes, oriundos de vários pontos do Brasil, principalmente do norte e nordeste, que para cá se deslocaram atraídos pelos filões diamantíferos e auríferos descobertos inicialmente por João Arinos Teixeira.

Entre 1912 e 1930 as lanchas que traziam produtos, atracavam no Casario, atual Parque das Águas.

Com a construção das primeiras estradas, em 1912 uma balsa foi introduzida para propiciar a travessia de veículos, animais e gente para o então Povoado rio Vermelho.

Entre 1920 e 1953 o local foi ponto de circulação de índios Bororo, de viajantes, migrantes e população regional. O povoado rio vermelho foi reconhecido como tal em 1915. Em 1918 o lugar passou a ser chamado Rondonópolis em homenagem ao Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon.

Em 1918, o deputado e agrimensor Major Otavio Pitaluga conclui o projeto de medição, alinhamento e estética da localidade.

No mesmo ano, no intuito e homenagear Cândido Mariano Rondon, Pitaluga promove a mudança do nome da povoação do Rio Vermelho para Rondonópolis, bem como cria o projeto que transforma o local em distrito de santo Antonio do Leverger e comarca de Cuiabá, em outubro de 1920.

Todavia, no ano 20 vêm encontrar o novo distrito em condições históricas adversas. E Rondonópolis passou sofrer um processo de despovoamento, sobretudo em virtude de problemas ligados as enchentes e epidemias, desentendimentos entre os moradores e a descoberta de garimpos, realizada por João Arenas Teixeira, na vizinha região de Poxoréu, em 1924.

Tal processo proporcionou o crescimento de Poxoréu, que em 1938 é elevada à categoria de município, ao mesmo tempo em que incluía Rondonópolis como um de seus distritos.

O povoado Rio Vermelho foi elevado a distrito em dez de agosto de 1915, ocorrendo a sua emancipação política em dez de dezembro, de 1953, que foi regulamentada pela Lei Municipal 2.777, de 22 de outubro de 1971.

Possuidora de solos e terras férteis, Rondonópolis se tornou atração para colonizadores, que aqui fincaram raízes e passaram desenvolver lavouras e fazendas de criação de bovinos.

Em 1918 o lugar passou a ser chamado Rondonópolis em homenagem ao Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon.


CAPITÚLO III

Marechal Rondon e sua importância para Rondonópolis

Cândido Mariano da Silva Rondon (figura 04) nasceu em Mimoso, no estado do Mato Grosso, no dia 5 de maio de 1865 (naquele período esta cidade pertencia a Comarca de Barão de Melgasso). Seu pai era descendente de portugueses, sua mãe era descendente de índios Bororo. Quando seu pai faleceu, Rondon tinha dois anos de idade; seus estudos ficaram aos cuidados de seu tio. Depois que Rondon terminou seus estudos foi ser professor. Mais tarde ingressou-se no Regimento de Cavalaria no ano de 1881, aos 16 anos optou pela carreira militar servindo como soldado no 2º Regimento de Artilharia a Cavalo, e ingressando dois anos depois na Escola Militar da Praia Vermelha (Rio de Janeiro).

Em 1886 entrou para a Escola Superior de Guerra onde assumiu um papel ativo no movimento pela proclamação da República. Fez o curso do Estado Maior de 1ª Classe e foi promovido a alferes (atual "aspirante-oficial"). Graduou-se como bacharel em Matemática e em Ciências Físicas e Naturais e participou dos movimentos abolicionista e republicano por volta de 1890. Em 1889, Rondon participou da construção das Linhas Telegráficas de Cuiabá, assumindo a chefia do distrito telegráfico de Mato Grosso, e foi nomeado professor de Astronomia e Mecânica da Escola Militar, cargo do qual se afastou em 1892. Entre 1900 e 1906 dirigiu a construção de mais uma linha telegráfica, entre Cuiabá e Corumbá, alcançando as fronteiras do Paraguai e da Bolívia. Começou a construir a linha telegráfica de Cuiabá a Santo Antonio do Leverger, em 1907, sua obra mais importante.

A comissão do Marechal foi a primeira a alcançar a região amazônica. Nesta mesma época estava sendo feita a ferrovia Madeira-Mamoré, que junto com a telegráfica de Rondon ajudaram a ocupar a região do atual estado de Rondônia. Rondon fez levantamentos cartográficos, topográficos, zoológicos, botânicos, etnográficos e lingüísticos da região percorrida nos trabalhos de construção das linhas telegráficas.

Foi indicado componente da Comissão Construtora das Linhas Telegráficas, explorando sertões do Mato Grosso, no ano de 1892. Durante suas expedições, Rondon teve contato com diversas tribos indígenas, e ficou chocado com o tratamento desumano que os homens brancos dispensavam aos índios. Estes consideravam Rondon um grande amigo e protetor. Apesar do fato de ser um soldado, Rondon serviu à paz e lutou bravamente pelo direito dos índios a um tratamento mais humano e com respeito a suas crenças milenares

Sua meta era esta: “Matar nunca, morrer se necessário”. Efetuou uma expedição às margens do Amazonas junto com Teodoro Roosevelt no ano de 1913. Do ano de 1927 a 1930, foi responsável de inspecionar as fronteiras do Brasil do Oiapoque até a divisa da Argentina com o Uruguai. Foi criador do Serviço Nacional de Proteção aos Índios; foi eleito em 1913 pelo Congresso das Raças em Londres, ressaltando que a obra de Rondon deveria ser imitada para honra da Civilização Mundial. Recebeu o título de Civilizador do Sertão, no ano de 1939 pelo IBGE, pelo trabalho realizado junto aos índios. Foi considerado grande chefe pelos índios silvícolas, e pelos civilizados como o Marechal da Paz. No ano de 1956 Rondon recebeu uma grande homenagem, foi dado ao Território do Guaporé o seu nome, que hoje é denominado Estado de Rondônia.

No período de 1907 a 1909, chegaram a Mato Grosso as expedições que tinham a finalidade de instalar linhas telegráficas, seu objetivo era estabelecer ligação entre Mato Grosso e Amazonas ao resto do país, através da comunicação surgindo desta maneira a Expedição Rondon, organizada pelo major Otavio Pitaluga.

O Marechal Cândido Rondon e uma equipe de trabalhadores contribuíram no povoamento e na colonização de Rondonópolis.

Iniciava-se por volta de 1919, a acomodação de um ponto de apoio para o acampamento da comissão Construtora de linhas Telegrafas, situado às margens do rio Poguba ou Vermelho. Este posto telegráfico foi instalado em 21 de janeiro de 1922, em torno do qual agregou-se a primeira população do futuro município de Rondonópolis: eram então seis pessoas. Rondon contatou as tribos indígenas que habitavam ao longo do percurso das linhas telegráficas de forma pacífica.

Como cartógrafo, Rondon traçou estradas, indicou os principais locais geográficos do Brasil, entre eles definiu Rondonópolis (figura 05)como ponto de convergência e de irradiação em termos de comunicação. Não é a toa que aqui se encontram as duas rodovias que dão acesso ao norte do Brasil.

Quando vinha a Rondonópolis Rondon se hospedava, onde é hoje o Parque das Águas /Casario, exatamente onde é o memorial Mal. Rondon, no Box 9 (figura 06). Ali era a casa de seu primo Moisés Cury Mussy. Este cenário era muito apreciado pelo Mal. Rondon quando ele estava em Rondonópolis. Antigamente aqui não tinha a ponte de concreto que existe hoje, só tinha o rio, majestoso, imponente e belo.

Aqui era o ponto final para as grandes embarcações e por isso, foi construído o Porto 1º de Fevereiro.

O Porto 1º de Fevereiro funcionou entre 1920 a 1937, e era onde atracava os barcos e lanchas vindos dos principais portos do centro-oeste brasileiro: Corumbá, Cáceres e Cuiabá.

Aqui desembarcaram os mantimentos para índios e para os primeiros moradores da região: sal, roupas, fumo, sementes, farinha etc. além de fazer o embarque e o desembarque de pessoas.

No transporte do sal, eram utilizados “Tambor de Sal” (figura 07) na lancha Rosa Bororo fabricado em 1910, é uma raridade histórica, e foi doado por mal Candido Rondon a uma família da região.

O tambor foi utilizado para transportar sal entre 1910 e 1937 sendo que quando a lancha foi desativa, Rondon deu oito tambores para dona Chiquinha Gonçalves de Queirós, esposa de Bartolomeu de queirós, pais de Ana Gonçalves de Queiros, primeira esposa de Moises Cury.

Em 1951 esse tambor foi doado para o senhor Moisés e dona Terezinha que o conservaram até 2005 quando ele doou ao memorial Marechal Rondon.

A Lancha rosa bororo - 1910 a 1937 (figura 08) foi assim batizada em homenagem à grande heroína desse povo que intermediou o contato e selou a paz entre os militares brasileiros e os índios Bororo.

A princípio a lancha fazia o trajeto Cuiabá – Corumbá, e mais tarde, o seu percurso foi estendido até aqui: o Porto 1º de Fevereiro, localizado às margens do Rio Vermelho.

A Lancha Rosa Bororo - 1910 a 1937 - foi assim batizada em homenagem à grande heroína desse povo que intermediou o contato e selou a paz entre os militares brasileiros e os índios bororos.

A princípio a lancha fazia o trajeto Cuiabá – Corumbá. Mais tarde, o seu percurso foi estendido até aqui: o Porto 1º de Fevereiro, localizado às margens do rio vermelho.

Essa lancha servia para prestar assistência aos índios das reservas de Meruri, sangradouro, Simões Lopes, Tereza Cristina e princesa Isabel, levando remédios, roupas, ferramentas para lavouras, etc.

Nesta época, o major Otávio Pitaluga, membro da Comissão Rondon, resolveu fixar residência em Rio Vermelho. Em 1917 formava fazenda ao lado dos goianos, a qual ia do Rio Arareau até o local denominado Porocho. O major Pitaluga chegava com idéia de lançar as bases para uma futura cidade. O projeto tinha por consequência a necessidade de transferência das fazendas do sítio escolhido para outro lugar.

Com o projeto, o nome do povoado Rio Vermelho foi alterado para Rondonópolis e as famílias formadoras desse povoado se sentiram atingidas sentimentalmente. Não era bem aceito o nome de Rondonópolis, depois que as terras e o próprio patrimônio levavam o nome de Rio Vermelho. Mas a vontade do major Otávio Pitaluga se sobrepôs a todos os apegos sentimentais e não havia como contestar sua liderança. Em março de 1919, a denominação passou oficialmente a ser Rondonópolis, em homenagem a Cândido Mariano da Silva Rondon.

Marechal Rondon, que visitava o pequeno lugar de uma só rua, de vez em quando que era um dos lugares prediletos dele. Aproveitava a ocasião para visitar os índios do povo bororo que habitavam na região. Consta que o Marechal Rondon não pode estar presente à festa da nova denominação, dada em sua honra, por se encontrar no Rio de Janeiro, chamado a receber oficialmente sua majestade o Rei Alberto, da Bélgica. A Resolução nº 814, de 8 de outubro de 1920, criou o distrito de Rondonópolis.

Rondonópolis se beneficiou da sua localização privilegiada no entroncamento das rodovias para Campo Grande e Alto Araguaia. O município foi criado pela Lei nº 666, de 10 de dezembro de 1953.

Rondon é conhecido como o mais ilustre dos brasileiros. Faleceu no Rio de Janeiro, em 19 de janeiro de 1958, com quase 93 anos. Patrono das comunicações que ligou o Brasil pelas linhas telegráficas registrou espécies de plantas, pássaros e animais. Fez filmagens e fotografias quando o cinema ainda era incipiente. Por isso Rondon era considerado como um homem visionário, muito além do seu tempo. Contudo, ainda não se escreveu a biografia que a rica vida do Marechal Rondon merece. O sonho de ver o país exibindo ares do chamado primeiro mundo, parece fazer com que aqui só se percebam o valor dos brasileiros responsáveis pelos processos de industrialização. Nesses casos, várias e merecidas biografias já foram escritas. Para o desbravador desses rincões, para o grande ator da luta pela recuperação da dignidade dos nossos irmãos índios, ainda falta alguém com o talento e a determinação do velho Marechal.

Este trabalho serve apenas para divulgar alguns fatos importantes da vida deste grande brasileiro, um dos mais populares personagens das primeiras décadas do século passado, e então, um dos poucos brasileiros de renome internacional.

FONTE DE PESQUISA

BIBLIOGRÁFICA

ALVES, Laci Maria Araújo. Experiências de mulheres.

LMAA Editora, 2001. História da educação. Rondonópolis: Ed UFMT, 1995.


CARMO, Ailon do. Reminiscência de Rondonópolis. Gráfica Modelo. Rondonópolis-MT 2002


ISAAC, Paulo Augusto Mário. Educação escolar indígena Boé-Bororo: alternativa e resistência em Tadarimana. Cuiabá: Instituto de Educação, 1997. (Dissertação de Mestrado).


NASCIMENTO, Flávio Antônio da Silva. Aceleração temporal na fronteira: o estudo de caso de Rondonópolis – MT. São Paulo: FFLCH/USP, 1997. Tese de Doutorado.


TESORO, Luci Léa Lopes Martins. Rondonópolis –MT: Um entroncamento de mão única – lembranças e experiências dos pioneiros. São Paulo: 1993.

ARTIGOS

GONÇALVES, Maria Aparecida. Rondonópolis-mt: Elementos de sua História

STEFANINI, Maria Perpetua Texeira. O município de Rondonópolis – MT

ONLINE

http://www.ferias.tur.br/informacoes/4462/rondonopolis-mt.html

ROMARIA DOS MÁRTIRES: ORIGENS E ALGUNS SIGNIFICADOS

sábado, 24 de janeiro de 2009 · 4 comentários

“Mártir é aquele que dá um sinal extremo de sua fé em Deus e testemunho de amor aos seus irmãos até o sacrifício extremo, sendo o testemunho o que permanece fiel até o fim”.
(Pe. Giovane Pereira de Melo)

Na América Latina, desde o início de sua dita “colonização” (processo que ainda hoje é avaliado como em andamento), o martírio se tornou um grito tanto pela vida quanto pela fé. Devido a isso, a Igreja Católica tem buscado manter sempre viva a memória de mártires que deram suas vidas na tentativa de mudar a realidade das pessoas menos favorecidas da sociedade.
É neste contexto que passou a ser realizada, a partir de hum mil novecentos e noventa e dois, em Rondonópolis-MT, a Romaria dos Mártires, que vem constituindo-se como mais uma forma de manifestação pública da fé religiosa. Mas não só, como poderemos ver mais adiante.
As romarias estão construídas simbolicamente dentro do sistema de significações do imaginário tradicional da religiosidade popular, compartilhando, no meu entendimento, das mesmas significações da procissão.
Em Rondonópolis – MT, ela acrescenta o fato social de congregar pessoas de diversos grupos sociais, inclusive de lugares diferentes e até mesmo distantes, reunindo pessoas de toda a micro-região, e não necessariamente só católicos.
Castro M. Bartolomé Ruiz define a romaria como “um espaço social de encontro de diversos grupos, e por isso é um espaço de transmissão e partilha de imaginários, símbolos e significados” .
Com o passar do tempo, tal como na religião, nas romarias também foram acontecendo transformações. Assim, “Foram organizadas romarias novas para símbolos novos: Romaria de Canudos, Romaria de Zumbi, Romaria da cana, Romaria da terra, Romaria do trabalho etc.” Acrescente-se a essas, a Romaria dos Mártires, que é uma homenagens aos religiosos e leigos assassinados por seu engajamento em lutas sociais e políticas em prol dos menos favorecidos, isto é, em causa dos oprimidos e dos excluídos.
Os Mártires lembrados pela Igreja Católica no Brasil e, em especial, pela Diocese de Rondonópolis-MT, quando da realização da Romaria dos Mártires, são aqueles que deram sua vida pelas causas dos acima mencionados, como, portanto, ocorre noutros lugares do país.
Como sabemos, a cada ano surgem novos conflitos no campo, entre os latifundiários e os excluídos da terra. E é nesses processos, por exemplo, que ganham visibilidade essas pessoas - os mártires, religiosos ou não, que arriscam suas vidas, confrontando, denunciando, organizando etc., e assim buscando sanar ou ao menos amenizar esses conflitos.
Muitas dessas pessoas são perseguidas, torturadas, assassinadas, uma maneira não só de conter a luta, mas de desaconselhar a tantos outros que possam querer dela fazer parte.
Em vista disso, minha Monografia servirá também para manter viva a memória desses lutadores, pessoas essas que protagonizam ações, tomam iniciativa em lutas a favor dos injustiçados.
O Professor Ivanildo José Ferreira em entrevista que me concedeu, contou-me que no ano de hum mil novecentos e noventa e dois, quando se deu a primeira Romaria dos Mártires em Rondonópolis, haviam muitas questões envolvendo trabalhadores em luta pela posse e permanência na terra, assim como questões indígenas latentes, como a busca de garantia de seus territórios, de dignidade às suas sobrevivências etc.
Nesse sentido, percebe-se que os temas que têm norteado ao longo dos anos a ocorrência da Romaria dos Mártires, vêm sempre buscando dar um enfoque maior às questões que procuram fortalecer as lutas sociais e políticas.
Segundo o Professor Ivanildo
Só para se ter uma idéia, aqui, o primeiro grande assentamento na zona rural tinha sido a Gleba Rio Vermelho. Logo depois a Cascata, Várzea do Ouro, enfim. Mas, assim, de movimento grande foi a Gleba Rio Vermelho, que tinha mais ou menos quatro anos de assentados. Essas primeiras Romarias tentaram fortalecer esses movimentos. E até me parece que valeu: o número de assentamentos que a gente tem aqui na região é muito grande.
Portanto, se no seio desses movimentos pela terra se gestaram tantos mártires, lembrá-los, a exemplo do que acontece na Romaria, é manter acesa a chama da luta, que, pelo que se pode entender da fala do Prof. Ivanildo, tem dado resultados, posto que muitos trabalhadores vêm conquistando um pedacinho de chão.
Assim, pode-se dizer que a Romaria dos Mártires tem como uma de suas finalidades lembrar às pessoas que dela participam, aqueles (as) que morreram em defesa da vida de outros; lembrar que Mártires são aqueles que não desistem da luta por uma vida melhor para seus semelhantes, mesmo que isso signifique morrer por esse ideal.
A Igreja Católica tem valorizado a presença desses mártires na construção de sua trajetória, o que é visível na Diocese de Rondonópolis, através das paróquias que a compõem, que buscam também avivar por meio da Romaria dos Mártires a memória dos seus fiéis, pois um povo sem memória é um povo sem identidades, sem resistência e sem história. É uma maneira de não deixar cair no esquecimento esses que tanto merecem homenagem e respeito pelo desempenho que tiveram em lutas coletivas por justiça social. Quem sabe assim, por meio dos exemplos deixados pelos Mártires ali homenageados, mantenha-se acesa a chama da solidariedade entre as pessoas, que estão cada vez mais distantes umas das outras, cada uma vivendo por si, sem preocupar-se com o seu semelhante.
Castro M. Bartolomé Ruiz pondera que as romarias “são constituídas com a significação de unir a fé com o compromisso social e político.” Isso é perceptível na Romaria dos Mártires, pois quem dela participa pode observar o caráter religioso, social e político que a compõem através dos grupos ali reunidos, tais como as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), etnias indígenas, sindicatos e outros movimentos sociais e entidades organizadas. Também se percebe a presença de políticos, alguns por serem ligados a algum movimento social ou a grupos da Igreja Católica, e outros somente com o interesse de marcar presença em um evento que tem grande repercussão na imprensa, e que, obviamente, reúne um significativo número de eleitores.
Mas, como surgiu a Romaria dos Mártires? Onde e quando teria tido início? Busquei essa resposta junto ao padre Giovane Pereira de Melo. Perguntei a ele se há algum livro que fale sobre o assunto. Contudo, ele não pode me precisar. No entanto, conversando com a professora da disciplina Monografia, Drª Laci Maria Araújo Alves, ela me disse que possuía um livro que mencionava os mártires e que falava sobre a primeira manifestação que se tornaria a Romaria dos Mártires.
Foi assim que tomei contato com o livro “Descalço sobre a terra vermelha”, de Francesc Escribano. Nele, o autor conta a vida de Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, estado de Mato Grosso. Também registra a morte de alguns religiosos, tais como padre Rodolfo Lunkenbein, Padre João Bosco Penido Burnier, eles que foram amigos de Dom Pedro.
Francesc Escribano diz que o
povo de Ribeirão quis celebrar a missa de sétimo dia [da morte de padre João Bosco em 1976]. Depois da missa, fizeram uma procissão, que acabou na porta da delegacia na qual haviam sido torturado as duas mulheres e onde atiraram contra o sacerdote […] Os participantes da procissão derrubaram a delegacia e levantaram uma cruz em memória de João Bosco. Atualmente, a cruz está num local mais visível da cidade, ao lado da igreja de Ribeirão […] [que se] transformou no ‘Santuário dos Mártires da Caminhada’
Parece ter sido dessa manifestação pública que teria se dado início à realização da Romaria dos Mártires pela Igreja Católica. Busquei outras fontes, mas não consegui encontrar nada a respeito, o que deixo como sugestão a futuras pesquisas.
O Professor Ivanildo José Ferreira disse que também não saberia dizer como a Romaria dos Mártires teria tido início em nível de Brasil. Contudo, ponderou que ela vem acontecendo em lugares onde têm ocorrido grandes conflitos, principalmente de terra. Lembrou de mortes acontecidas na região centro-oeste, como em Mato Grosso a morte do padre João Bosco Burnier; do padre Josimo Morais Tavares, no atual estado de Tocantins (que na época de sua morte era território de Goiás).
Lembrou ele ainda, que nas décadas de 1970 e 1980, no Brasil como um todo e também, de modo particular, no nosso município, havia inúmeros conflitos ligados a questões da terra e que houve muitas pessoas que se destacaram em lutas específicas, seja pelo direito de acesso à terra, à cidadania ou a outros direitos (lembremo-nos que, nesse período, viva-se no Brasil o regime militar, marcado pela perda de liberdades políticas, onde torturas, assassinatos, exílios compunham uma triste rotina).
Fazer romaria é uma tradição antiga em todas as religiões, culturas, povos e raças. Pode-se dizer que nas romarias estão imbricados temas culturais, sociais, políticos etc. Todas as romarias têm sempre um objetivo a alcançar, um sonho a realizar, uma meta a atingir.
A Romaria dos Mártires também se articula à Campanha da Fraternidade, à medida que todos os anos adota o lema que é trabalhado durante a mesma, que está sempre ligado a alguma problemática social.
Na trajetória percorrida pela Romaria dos Mártires, as multidões caminham, levam seus símbolos, tais como velas; água; rosário; imagens de santos etc.
Como participante, lembro que quando teve início, na década passada, rezava-se a dezena do terço, e em cada dezena se buscava refletir e responder a expectativas dos cristãos católicos. Durante o percurso, clama-se por justiça através da Palavra; dos cantos que são escolhidos, coerentes com suas temáticas; do teatro que é apresentado, a exemplo do que ocorreu em 2006 durante a procissão, com encenação da morte da Irmã Dorothy Stang, feita por jovens da Diocese. Enfim, de maneira geral, pode-se dizer que tudo que acontece durante a Romaria, os diferentes rituais que a compõem, tudo está ligado às problemáticas da terra, das mulheres, dos indígenas, dos negros, dos deficientes, dos idosos, dos jovens, do meio ambiente, das crianças etc.
A Romaria dos Mártires é uma experiência significativa, pois os romeiros podem demonstrar seus sonhos e expressar a sua realidade. É claro que cada pessoa tem um motivo particular que a impulsiona para essa caminhada, como dona Raulina Medeiros Quedes, 59 anos, moradora no Bairro Santa Cruz, participante desde a primeira Romaria dos Mártires que aconteceu em Rondonópolis, no ano de hum mil novecentos e noventa e dois. Disse-me ela:
eu gosto muito de participar dos movimentos, assim da Igreja, que é uma maneira de demonstrar aquele sentimento né? que a gente tem pelas pessoas que doaram suas vidas pelo bem da humanidade. Então, isso traiz assim pela época da Quaresma, é uma época de penitência, então, a gente faz um pouco também como penitência né? Então eu acredito que é um momento que a gente tira pra dar um testemunho da fé que a gente tem
Portanto, para ela, a Romaria dos Mártires é um momento de expressão da própria fé, no tocante ao respeito a elementos da tradição católica, e também uma expressão de reconhecimento àqueles que doam suas vidas na luta pelos seus semelhantes.
Dona Maria Beltrame, 40 anos, moradora no Bairro São Sebastião, falou-me que participa da Romaria há oito anos, porque “É um pouquinho de muitas coisas, por exemplo, a caminhada a gente encontra muitas pessoas, de muitos lugares.” Sobressai na sua fala essa pluralidade de lugares de onde vêem muitas pessoas, o que demonstra que a Romaria dos Mártires realizada em Rondonópolis – MT, extrapolou os limites do município.
O jovem José Carlos Souza Costa, 19 anos, é uma dessas pessoas que vem de um outro município para participar da Romaria dos Mártires.
Morador em Juscimeira, estado de Mato Grosso, ele me disse que participa há dez anos. Tem como objetivo com essa participação “Se unir em prol da comunidade, em prol das pessoas que precisa da nossa ajuda, fazer uma revolução como os jovens fizeram nos anos 80 e fazer mudar. Isso hoje precisa ser mudado entre as pessoas”.
Percebe-se na fala de José Carlos uma dimensão mais política na razão que o motiva a participar. Ao falar de “revolução” dos jovens nos anos 80, pode ser que esteja referindo-se à participação estudantil, por exemplo, no processo de redemocratização do Brasil, que foi muito significativa.
A Romaria dos Mártires, pelo que também pode ser percebido na fala de José Carlos, não é apenas um agrupamento de pessoas dispersas, se bem que têm muitos que vão apenas fazer um passeio; outros, para namorar, encontrar conhecidos; outros para “fazer política”, por intermédio do encontro com seus eleitores; outros por razões exclusivamente religiosas etc. Portanto, as motivações até podem ser variadas, mas há uma clara demonstração de fé, de sonhos e de esperanças, ainda que não seja de todos.

Profª Maria Aparecida Gonçalves

09 DE MARÇO: 17ª ROMARIA DOS MÁRTIRES

domingo, 9 de março de 2008 · 1 comentários

A América Latina, desde o século XVI, com a invasão dos europeus, vive em constantes conflitos, ora pela falta de liberdade econômica, ora pela opressão de governos tiranos. Muitas pessoas foram subjugadas pelo sistema e muitas vezes foram desrespeitadas. Outras pessoas foram violentadas no mais fundo do seu âmago, com a imposição de uma nova cultura, subtraindo-lhes antigos costumes, crenças, valores etc. Ou ainda, o sistema lhes impôs guerras, como a Guerra do Paraguai, na qual muitos perderam suas vidas, deixando de lado seus sonhos. Guerras que muitas vezes beneficiaram e beneficiam apenas aos governantes e as elites econômicas. Na América Latina, desde o início de sua dita “colonização” (processo que ainda hoje é avaliado como em andamento), o martírio se tornou um grito tanto pela vida quanto pela fé. Nesse quadro, a Igreja Católica tem buscado manter sempre viva a memória de mártires que deram suas vidas na tentativa de mudar a realidade das pessoas menos favorecidas da sociedade.
É neste contexto que a Diocese de Rondonópolis assumiu, a partir de um mil novecentos e noventa e dois, a Romaria dos Mártires, que vem constituindo-se como mais uma forma de manifestação pública da fé religiosa. Mais do que uma manifestação de fé, a Romaria dos Mártires também agrega lutas sociais contra as diferenças e desigualdades e todo tipo de exclusão social.
A cada ano surgem novos conflitos no campo, entre os latifundiários e os excluídos da terra. E é nesses processos, por exemplo, que ganham visibilidade essas pessoas - os mártires - religiosas ou não, que arriscam suas vidas, confrontando, denunciando, organizando etc., e assim buscando sanar ou ao menos amenizar esses conflitos. Muitas dessas pessoas são perseguidas, torturadas, assassinadas, o que se apresenta como uma tentativa não só de conter a luta, mas de desaconselhar a tantos outros que possam querer dela fazer parte. Nesse sentido, percebe-se que os temas que têm norteado ao longo dos anos a Romaria dos Mártires, vêm sempre buscando dar um enfoque maior às questões que procuram fortalecer as lutas sociais e políticas.
Assim, pode-se dizer que a Romaria dos Mártires tem como uma de suas finalidades rememorar às pessoas que dela participam, aqueles (as) que morreram em defesa da vida de outros; lembrar que Mártires são aqueles que não desistem da luta por uma vida melhor para seus semelhantes, mesmo que isso signifique morrer por esse ideal, como num dos cantos da Romaria: “ Acorda América, chegou a hora de levantar/ o sangue dos mártires, fez a semente se espalhar”.
A Igreja Católica tem valorizado a presença dos mártires na construção de sua própria história, o que é visível na Diocese de Rondonópolis, através das paróquias que a compõem, que buscam também avivar por meio da Romaria dos Mártires a memória dos seus fiéis, pois um povo sem memória é um povo sem identidade, sem resistência e sem história. É uma maneira de não deixar cair no esquecimento esses que tanto merecem homenagem e respeito pelo desempenho que tiveram em lutas coletivas por justiça social. Quem sabe assim, por meio dos exemplos deixados pelos Mártires ali homenageados, mantenha-se acesa a chama da solidariedade entre as pessoas, que estão cada vez mais distantes umas das outras, cada uma vivendo por si, sem preocupar-se com o seu semelhante.
Parabéns Igreja, parabéns povo de Deus pela coragem de anunciar o Reino de Deus, por meio da memória da vida de mulheres e de homens que acreditaram e lutaram por uma sociedade mais justa.
Maria Aparecida Gonçalves
Graduada em História pela UFMT/CUR
Artigo publicado no Jornal A Tribuna no dia 06/03/2008

Rondonópolis-MT: Elementos de sua História

terça-feira, 15 de maio de 2007 · 0 comentários


RONDONÓPOLIS-MT: ELEMENTOS DE SUA HISTÓRIA

Para a elaboração deste breve histórico sobre o município de Rondonópolis, Estado de Mato Grosso, busquei referências em estudos realizados por professores pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Universitário de Rondonópolis. Entre eles, estão os estudos da Drª. Maria Elsa Markus, Dr. Paulo Augusto Mário Isaac, Dr. Flávio Antônio da Silva Nascimento, Ms. Plínio José Feix e Drª Luci Léa Lopes Martins Tesoro.
Rondonópolis é um município que está situado na região Sudeste de Mato Grosso. Tem uma extensão territorial de 4.165 km2, e atualmente possui uma população aproximada de cento e oitenta mil habitantes.
Segundo estudos realizados no Sítio Arqueológico Ferraz Egreja, os primeiros sinais de vida em terras que hoje pertencem ao município de Rondonópolis datam de pelo menos cinco mil anos atrás.
Quanto à ocupação mais recente, de acordo com Luci Léa Lopes Martins Tesoro, no ano de mil novecentos e quinze, Joaquim da Costa Marques, então Presidente da Província de Mato Grosso, promulgou o Decreto Lei nº. 395, que estabelecia uma reserva de 2.000 hectares para o patrimônio da povoação do Rio Vermelho.
O povoado Rio Vermelho foi elevado a distrito em dez de agosto de mil novecentos e quinze, ocorrendo a sua emancipação política em dez de dezembro, de mil novecentos e cinqüenta e três, que foi regulamentada pela Lei Municipal 2.777, de 22 de outubro de 1997 .
À época, o lugar era povoado por índios Bororo, quando passou a ocupá-lo também um destacamento militar na localidade de Ponte de Pedra, assim como passou a ser procurado por pessoas que vinham para a região em busca de riquezas, terra e trabalho.
Rondonópolis é considerada hoje o terceiro maior município de Mato Grosso. É tido como o município mais desenvolvido economicamente. Contudo, alguns dos estudos consultados dão conta que uma vasta extensão de terra está nas mãos de grandes latifundiários, enquanto a maioria da população é esquecida, inclusive pelo poder público, que deveria, pelo menos, prestar-lhe maior e melhor assistência. Por outro lado, são inúmeras também as problemáticas urbanas: nem todos têm acesso à água tratada, à moradia, à educação, à saúde, ao transporte etc.
É nesse contexto que as diferenças entre as classes que o compõem vão tornando-se visíveis, o que no município tem engendrado as lutas de classes, colocando em lados opostos interesses antagônicos, dando visibilidade a lutas sociais e políticas, que têm envolvido trabalhadores rurais e urbanos, levando-os a se juntarem em certos momentos para lutar por direitos, tais como o direito de acesso à terra, pelo direito ao trabalho, à saúde, ao seu bem-estar e da sua família, a melhores salários etc.
Como teria sido a passado dessa região? Em que medida ele pode contribuir para que entendamos esse presente de tensões?
Segundo pesquisa realizada por Paulo Augusto Mário Isaac , quando os primeiros colonizadores chegaram à região Sudeste de Mato Grosso, no Século XVII, encontraram aqui os “aborígines”, aos quais deram várias denominações, tais como Porrudos, Coxiponeses, Cabaçais, Coroados, Orarimugadoge e a denominação de Bororo.
Entretanto, sobre a origem do povo Bororo não se tem nada comprovado. Alguns pesquisadores supõem que eles tenham vindo do Rio Negro, passando pela Bolívia, devido a sua linguagem e aos seus adornos, que são iguais aos que são usados na região citada.
Em resultado obtido por pesquisas arqueológicas realizadas em mil novecentos e oitenta e três, na Área Indígena Tadarimana, ocupada pelo povo Bororo, Irmhild Wüst diz que
Dentro da reserva indígena e num raio de aproximadamente de 50 km, foram levantados até agora 29 sítios arqueológicos, 23 dos quais, sítios cerâmicos a céu aberto, 5 abrigos sob rocha e um sítio de arte rupestre a céu aberto .
Para Paulo Serpa ,
O processo de contato dos Bororos com a sociedade se desenvolve há três séculos e pode ser analisado em três etapas distintas. A primeira etapa inicia-se em meados do século XVIII com a descoberta do ouro na região de Cuiabá […] Essa etapa […] os bandeirantes […] promoveram várias expedições punitivas contra os Bororos […]. A segunda etapa desse processo se resume de contato de resume na ‘pacificação’ dos bororos […] Enfim, no século XIX são encerradas as expedições punitivas […] iniciou-se então, o processo de ‘civilização’ com a fundação das Colônias Militares, em mil e oitocentos e oitenta e sete, as colônias de Tereza Cristina e Isabel, ambas no Médio São Lourenço, em mil novecentos e em mil novecentos e dois as Colônias Salesianas, na área dos rios das Garças, das Mortes e Sangradouro. Em mil e novecentos e dez, a criação do S.P.I., consolidou-se o processo de ‘pacificação’ com o estabelecimento de áreas reservadas aos Bororos e a conseqüência ocupação do território tradicional pelas frentes de mineração e agropecuária. A terceira etapa se caracteriza pelo contato permanente com os elementos representantes das frentes de expansão. Essa é a etapa mais dolorosa do processo histórico do contato, quando os Bororos […] perderam seus territórios de exploração, sofreram uma depopulação inusitada e passaram a depender exclusivamente dos agentes da política indigenista oficial, por um lado pelo S.P.I. e posteriormente pela FUNAI e, por outro lado, pelos missionários salesianos. O resultado do processo de contato dos Bororo com os segmentos da sociedade nacional caracteriza-se pelo esbulho da maior parte do seu território tradicional e pela drástica redução de sua população.
No século XVIII, os Bororo ocupavam uma área de aproximadamente trezentos e cinqüenta mil quilômetros quadrados. No entanto, hoje seu território está reduzido a cinco áreas indígenas, num total de cento e quarenta e um mil e seiscentos e oitenta e um alqueires, situados em oito municípios do Estado de Mato Grosso.
Mas, a história do contato permanente dos “aborígines” da região de Rondonópolis com a população das frentes de expansão, teve início, de acordo com estudos consultados, em mil novecentos e dois, com a chegada de um grupo de pessoas vindas do estado de Goiás, grupo este que se instalou às margens do rio Vermelho, em um lugar denominado pelos migrantes, de “Vilarejo Rio Vermelho”, hoje Rondonópolis.
Em nível local, é bastante perceptível decorrências da ocupação branca no que se refere às populações indígenas aí presentes. Tomemos aqui como exemplo a Aldeia Indígena de Tadarimana, localizada no município de Rondonópolis, na bacia do rio Vermelho, às margens esquerda deste e do Rio Tadarimana, e à margem direita do Rio Jurigue. Com uma área de aproximadamente nove mil e setecentos e oitenta hectares, nela hoje vivem apenas duzentos e dois índios Bororo.
Se em toda sociedade há contradições, com os Bororo não é diferente. Atualmente, eles conseguiram um pouco de terra (não o suficiente). No entanto, segundo Paulo Augusto Mário Isaac, além dos riscos, do descaso das autoridades e de setores da população rondonopolitana, a área indígena citada, bem como a população ali residente, corre sérios riscos por práticas efetuadas por alguns índios dessa comunidade. Nela, foram constatados arrendamentos de terra para pequenos agricultores residentes na região de Rondonópolis, e também retiradas indiscriminadas de madeira e de bambu, problemas que, segundo o acima mencionado pesquisador, já em mil novecentos e noventa e cinco a FUNAI, órgão responsável pelo bem-estar dos índios, tinha conhecimento, sem ter, contudo, tomado as devidas providências para solucioná-los, “por fazer parte da política de funcionários do órgão encobrir ‘algumas irregularidades’ em troca de apoio político no órgão indigenista” .
Percebe-se, portanto, neste contexto, interesses de cunho particular imbricados em um órgão que deveria zelar pelo interesse e bem-estar dos índios da referida região. Lembrando em tempo que a comunidade indígena não se beneficiava com isso, pois a renda era apropriada apenas por alguns indivíduos.
Apesar do longo tempo que se passou da dita “pacificação” dos Bororo, estes ainda vivem no seu dia-a-dia a discriminação e a violência sofrida no passado, tanto física quanto moral, sendo tratados como seres diferentes dos outros seres humanos.
Podemos observar isso, quando índios Bororo vêm à cidade e ficam na Praça dos Carreiros (região central da cidade de Rondonópolis). A maioria das pessoas que por ali passa os olha com descaso, como que dizendo: “que degradante!”; “esse problema não é meu!”, esquecendo-se (muitas vezes, até desconhecendo), os reais motivos que levam os índios a viverem dessa maneira.
Há ainda mais um agravante, que é a expropriação de suas terras, a qual eles tentam resistir bravamente, enfrentando a ganância do mundo e dos interesses capitalistas.
Flávio Antônio da Silva Nascimento avalia que as origens do povoamento branco na região não estão completamente esclarecidas. Provavelmente, tenha ocorrido por volta de mil oitocentos e setenta e cinco, com a implantação de um destacamento militar. Mas há divergências entre os estudiosos de período sobre essa data, principalmente pela grande lacuna existente.
No tocante à ocupação branca, na avaliação de Plínio José Feix ,
O processo de ocupação da microrregião foi protagonizado, inicialmente, por três categorias de trabalhadores: os garimpeiros, que desenvolveram as atividades de extração do diamante, principalmente nos municípios de Poxoréu, Guiratinga e Itiquira; os pecuaristas, que desbravaram principalmente os cerrados para a criação de gado de corte; e os agricultores, que se fixaram em áreas de ‘terra de cultura’ para desenvolverem a agricultura familiar.
Para Carmem Lúcia Senra Itaborahi de Moura, “as primeiras famílias de agricultores se fixaram na atual cidade de Rondonópolis em 1902, que na época era distrito do município de Poxoréu, do qual se emancipou em 1953” .
Até a década de hum mil novecentos e quarenta, a migração de trabalhadores rurais vindos de outros estados foi um processo lento e espontâneo, pelo que consta em alguns estudos pesquisados. De acordo com estes, os migrantes vinham em busca do sonho de ficarem ricos, devido às descobertas de minas de ouro e pedras preciosas. Também na esperança de obterem um pedaço de terra, a fim de desenvolverem ali uma agricultura familiar. Em geral, eles eram pessoas pobres e viam nessa possibilidade de acesso à terra a chance de melhora de vida para si e suas famílias. Elas vinham também em busca de trabalho.
Na apreciação feita por Flávio Antônio da Silva Nascimento, percebe-se que ocorreram importantes transformações na região, na década de hum mil novecentos e quarenta, tais como melhoria nas estradas, estas que beneficiaram as comunicações e o fluxo de migração. Daí teve início o processo de colonizações públicas, por meio das quais os trabalhadores se estabeleceram na terra por meio de sua posse; e o processo de colonização privada, que era feito por empreendimentos particulares, o que se dava através da venda de pequenos lotes.
Esse processo de migração teria se dado por meio de várias frentes de expansão. A primeira, que vai de hum mil oitocentos e setenta e cinco a hum mil novecentos e quarenta, é denominada de Fase Pioneira, que foi marcada pela persistência dos “pioneiros”. Isso porque além de chegarem a um lugar “esmo”, encontraram nesta região a resistência indígena, apesar de os pioneiros, com sua força (arma de fogo), terem conseguido “liquidar” essa resistência, pelo menos o suficiente para fazê-los permanecer. Assim, eles conseguiram edificar neste local, um vilarejo, no intuito da realização dos seus próprios propósitos, dos quais a população indígena parece não ter feito parte.
É claro que eles não tiveram todos os seus sonhos realizados. No entanto, os migrantes que vieram para esta região na década de quarenta, puderam realizar e implantar muitos deles. Isto é, na década de um mil novecentos e quarenta, homens e mulheres, anônimos migrantes, possibilitaram o crescimento populacional (o que elevou Rondonópolis nos anos de hum mil novecentos e noventa à terceira cidade mais populosa do Estado de Mato Grosso); também, deram início ao crescimento econômico da região. Por exemplo: eles buscavam por terras de cultivo e para a criação de gado, e Rondonópolis correspondia a essa expectativa devido ao seu ecossistema.
Esse desenvolvimento teria ocorrido também, graças à atuação da Comissão Rondon, que tinha à sua frente o Marechal Cândido Rondon.
Além da instalação da linha telegráfica pela mesma, ela também contribuiu com a construção de uma estrada que ligava Goiás com Cuiabá. Daí, em hum mil novecentos e dezesseis, o povoado Rio Vermelho ter tido a sua primeira casa do comércio; em hum mil novecentos e vinte e dois, já com sua elevação a distrito e a mudança de seu nome (que de povoado Rio Vermelho passou a se chamar Rondonópolis em homenagem a Marechal Cândido Rondon), foi instalado aqui um ponto telegráfico, ocorrendo no ano de hum mil novecentos e vinte e quatro a primeira transmissão.
O primeiro diretor dessa estação teria sido Benjamim Rondon, filho do Marechal Cândido Rondon. Ele também foi responsável pela construção da primeira balsa, que era utilizada para fazer a travessia do Rio Vermelho, já que na época não havia uma ponte sobre o mesmo.
Em hum mil novecentos e quarenta e dois houve a construção de uma ponte sobre o Rio Vermelho, que logo foi levada pela enchente.
Apesar da melhora que a abertura de estrada trouxe para o povoado, este, contudo, passou por adversidades no final dos anos vinte e começo da década de trinta, tais como a estada dos “revolucionários” da Colona Prestes, que de acordo com registros consultados e com avaliações neles contidas, “saqueavam” em busca de alimentação; doenças como o “fogo selvagem”, que causou muitas mortes; enchentes; diminuição das atividades garimpeiras nas áreas próximas etc., causando o desaceleramento do crescimento populacional, na avaliação de alguns. Segundo Flávio Antônio Nascimento, em hum mil novecentos e vinte e cinco, o povoado tinha vinte e cinco pessoas, tendo ocorrido, portanto, um certo “esvaziamento” do lugar.
Contudo, no final dos anos de hum mil novecentos e quarenta foram implantadas nesta microrregião várias colônias agrícolas. Daí até hum mil novecentos e sessenta, houve um intenso movimento migratório para a mesma. Grandes proprietários de terra vieram de outros estados em busca de terra barata. Além desses, vieram outros migrantes. A maior parte deles era de trabalhadores rurais pobres, vindos do interior do Nordeste, do Sudeste, do Sul, que vinham, na visão de alguns pesquisadores, em busca de terra, mas o que a maioria deles conseguiu foi tornar-se apenas mão-de-obra barata.
Esse período teria sido a fase do capitalismo mercantil, que, segundo Plínio José Feix, “extraía parcela da renda dos trabalhadores rurais através de transações comerciais e que exigia deles, assim, um sobretrabalho para garantir sua sobrevivência” .
Na realidade, essa era a principal forma de subordinação e de exploração dos pequenos produtores e trabalhadores rurais, solidificando cada vez mais a apropriação, pelos capitalistas, das terras aqui existentes. Ou seja, os capitalistas recebiam terras doadas pelo governo ou compradas por preços irrisórios, tornando-se grandes latifundiários na região.
Houve aí, portanto, uma intensificação da migração; da apropriação privada de terras e do desenvolvimento econômico e social da região. Esse movimento ficou conhecido como a Fase de Fronteira Agrícola.
É claro que a ação do Estado foi de fundamental importância para a ocupação e desenvolvimento socioeconômico da microrregião aqui tratada, pois já com a “Marcha para o Oeste” o governo doava terras, principalmente para a iniciativa privada.
Neste contexto, na avaliação de alguns estudiosos, o que teria favorecido o crescimento da economia foi a construção de estradas, pois Rondonópolis estava situada em uma posição geográfica privilegiada. Assim, tornou-se entroncamento de duas rodovias - uma ligando Cuiabá – Rondonópolis – Campo Grande (atual BR 163), e outra ligando Cuiabá – Rondonópolis – Goiás (atual BR 364).
Já, o período entre hum mil novecentos e sessenta e hum mil novecentos e oitenta, conhecido como Frente de Integração Econômica, teve como principal característica o processo de expansão do capitalismo na agricultura, com grande concentração de terras nas mãos de empresários, o que gerou maior aceleração na ocupação do território e que trouxe consigo a chamada “modernização”, que acabou por “revolucionar” a agricultura e a pecuária, que contaram com incentivos governamentais, por intermédio de programas, tais como: POLOCENTRO, SUDAM, PRODOEST, PROTERRA.
O maior impulso para o desenvolvimento foi o cultivo da soja, iniciado na década de setenta, tornando-se o principal produto de exportação. Isso se deve principalmente à inovação tecnológica na produção, o que fez com que a região desenvolvesse relações comerciais nesse setor com outros setores da economia, relações essas em nível local, regional e internacional.
Rondonópolis se tornou um dos municípios de grandes plantações de soja, do Estado de Mato Grosso, o que pode ser constatado em épocas de plantio, pois até em regiões como a que liga Guiratinga a Barra do Garças, onde até pouco tempo atrás se via apenas plantações de arroz e feijão, hoje, praticamente só se vê o verde da soja.
A inovação tecnológica na produção fez com que a partir daí ocorresse a supervalorização da terra. Com isso, os posseiros acabaram por ser expulsos da mesma, o que levou muitos desses trabalhadores rurais para a cidade de Rondonópolis, agravando ainda mais os problemas sociais já existentes.
Nessa época, até mesmo pela abundância de mão-de-obra, chegou a ser praticada a escravidão por dívidas, prática realizada em muitas grandes fazendas. Aliás, ainda hoje não é incomum a constatação desse tipo de escravidão no estado de Mato Grosso.
É nesse processo de desenvolvimento do capitalismo que se agravaram ainda mais as contradições geradas por este sistema em Rondonópolis, como avalia Maria Elsa Markus, ao dizer que, nesse contexto,
ganha importância […] a questão urbana, por conta do seu agravamento em Rondonópolis, no mesmo período, principalmente com o aumento populacional, que não vem sendo acompanhado, na mesma medida, de garantias necessárias à inclusão social […] o desemprego, o subemprego, a falta de moradia, de saneamento básico, de acesso à escola […] a saúde pública está longe de assegurar as condições mais elementares àqueles que demandam os seus serviços; há um aumento assustador da criminalidade, do tráfico de drogas, da prostituição; o salário é humilhante […] sem esquecer a acintosa existência de nichos de prosperidade e riqueza que, não se há de ter dúvida, contemplam uma minoria de pessoas, através do aviltamento da minoria.
Muitos desses aspectos acima situados para serem constatados basta ir até a região central de Rondonópolis, onde durante o dia há um crescimento cada vez maior de pessoas mendigando; à noite é possível ver jovens se prostituindo e fazendo uso de drogas. Isso se deve principalmente à má distribuição de renda, ou seja, um grande acúmulo de riqueza nas mãos de poucos, enquanto a maioria perece, como se não fizesse parte dessa sociedade.
Para Plínio Feix, “a questão agrária e a questão urbana são as duas questões sociais mais explosivas na microrregião de Rondonópolis”.
Com pouco mais de 50 anos de emancipação político-administrativa, com uma população aproximada de 180 mil habitantes, Rondonópolis se tornou conhecida como a “Capital Nacional do Agronegócio”.
No entanto, o modelo de desenvolvimento praticado na região tem trazido benefícios para os empresários capitalistas e acentuado cada vez mais a exclusão social, pois enquanto o agronegócio tem estado em franca expansão nesses últimos anos, na periferia da cidade surgem, a cada dia, bairros carentes, sem nenhuma infra-estrutura.
Maria Aparecida Gonçalves
Graduada em História pela UFMT/CUR

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