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Falando um pouco sobre religião

segunda-feira, 14 de maio de 2007 ·

ROMARIA DOS MÁRTIRES: ORIGENS E ALGUNS SIGNIFICADOS

“Mártir é aquele que dá um sinal extremo de sua fé em Deus e testemunho de amor aos seus irmãos até o sacrifício extremo, sendo o testemunho o que permanece fiel até o fim”.
(Pe. Giovane Pereira de Melo)

Na América Latina, desde o início de sua dita “colonização” (processo que ainda hoje é avaliado como em andamento), o martírio se tornou um grito tanto pela vida quanto pela fé. Devido a isso, a Igreja Católica tem buscado manter sempre viva a memória de mártires que deram suas vidas na tentativa de mudar a realidade das pessoas menos favorecidas da sociedade.
É neste contexto que passou a ser realizada, a partir de hum mil novecentos e noventa e dois, em Rondonópolis-MT, a Romaria dos Mártires, que vem constituindo-se como mais uma forma de manifestação pública da fé religiosa. Mas não só, como poderemos ver mais adiante.
As romarias estão construídas simbolicamente dentro do sistema de significações do imaginário tradicional da religiosidade popular, compartilhando, no meu entendimento, das mesmas significações da procissão.
Em Rondonópolis – MT, ela acrescenta o fato social de congregar pessoas de diversos grupos sociais, inclusive de lugares diferentes e até mesmo distantes, reunindo pessoas de toda a micro-região, e não necessariamente só católicos.
Castro M. Bartolomé Ruiz define a romaria como “um espaço social de encontro de diversos grupos, e por isso é um espaço de transmissão e partilha de imaginários, símbolos e significados” .
Com o passar do tempo, tal como na religião, nas romarias também foram acontecendo transformações. Assim, “Foram organizadas romarias novas para símbolos novos: Romaria de Canudos, Romaria de Zumbi, Romaria da cana, Romaria da terra, Romaria do trabalho etc.” Acrescente-se a essas, a Romaria dos Mártires, que é uma homenagens aos religiosos e leigos assassinados por seu engajamento em lutas sociais e políticas em prol dos menos favorecidos, isto é, em causa dos oprimidos e dos excluídos.
Os Mártires lembrados pela Igreja Católica no Brasil e, em especial, pela Diocese de Rondonópolis-MT, quando da realização da Romaria dos Mártires, são aqueles que deram sua vida pelas causas dos acima mencionados, como, portanto, ocorre noutros lugares do país.
Como sabemos, a cada ano surgem novos conflitos no campo, entre os latifundiários e os excluídos da terra. E é nesses processos, por exemplo, que ganham visibilidade essas pessoas - os mártires, religiosos ou não, que arriscam suas vidas, confrontando, denunciando, organizando etc., e assim buscando sanar ou ao menos amenizar esses conflitos.
Muitas dessas pessoas são perseguidas, torturadas, assassinadas, uma maneira não só de conter a luta, mas de desaconselhar a tantos outros que possam querer dela fazer parte.
Em vista disso, minha Monografia servirá também para manter viva a memória desses lutadores, pessoas essas que protagonizam ações, tomam iniciativa em lutas a favor dos injustiçados.
O Professor Ivanildo José Ferreira em entrevista que me concedeu, contou-me que no ano de hum mil novecentos e noventa e dois, quando se deu a primeira Romaria dos Mártires em Rondonópolis, haviam muitas questões envolvendo trabalhadores em luta pela posse e permanência na terra, assim como questões indígenas latentes, como a busca de garantia de seus territórios, de dignidade às suas sobrevivências etc.
Nesse sentido, percebe-se que os temas que têm norteado ao longo dos anos a ocorrência da Romaria dos Mártires, vêm sempre buscando dar um enfoque maior às questões que procuram fortalecer as lutas sociais e políticas.
Segundo o Professor Ivanildo
"Só para se ter uma idéia, aqui, o primeiro grande assentamento na zona rural tinha sido a Gleba Rio Vermelho. Logo depois a Cascata, Várzea do Ouro, enfim. Mas, assim, de movimento grande foi a Gleba Rio Vermelho, que tinha mais ou menos quatro anos de assentados. Essas primeiras Romarias tentaram fortalecer esses movimentos. E até me parece que valeu: o número de assentamentos que a gente tem aqui na região é muito grande".
Portanto, se no seio desses movimentos pela terra se gestaram tantos mártires, lembrá-los, a exemplo do que acontece na Romaria, é manter acesa a chama da luta, que, pelo que se pode entender da fala do Prof. Ivanildo, tem dado resultados, posto que muitos trabalhadores vêm conquistando um pedacinho de chão.
Assim, pode-se dizer que a Romaria dos Mártires tem como uma de suas finalidades lembrar às pessoas que dela participam, aqueles (as) que morreram em defesa da vida de outros; lembrar que Mártires são aqueles que não desistem da luta por uma vida melhor para seus semelhantes, mesmo que isso signifique morrer por esse ideal.
A Igreja Católica tem valorizado a presença desses mártires na construção de sua trajetória, o que é visível na Diocese de Rondonópolis, através das paróquias que a compõem, que buscam também avivar por meio da Romaria dos Mártires a memória dos seus fiéis, pois um povo sem memória é um povo sem identidades, sem resistência e sem história. É uma maneira de não deixar cair no esquecimento esses que tanto merecem homenagem e respeito pelo desempenho que tiveram em lutas coletivas por justiça social. Quem sabe assim, por meio dos exemplos deixados pelos Mártires ali homenageados, mantenha-se acesa a chama da solidariedade entre as pessoas, que estão cada vez mais distantes umas das outras, cada uma vivendo por si, sem preocupar-se com o seu semelhante.
Castro M. Bartolomé Ruiz pondera que as romarias “são constituídas com a significação de unir a fé com o compromisso social e político.” Isso é perceptível na Romaria dos Mártires, pois quem dela participa pode observar o caráter religioso, social e político que a compõem através dos grupos ali reunidos, tais como as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), etnias indígenas, sindicatos e outros movimentos sociais e entidades organizadas. Também se percebe a presença de políticos, alguns por serem ligados a algum movimento social ou a grupos da Igreja Católica, e outros somente com o interesse de marcar presença em um evento que tem grande repercussão na imprensa, e que, obviamente, reúne um significativo número de eleitores.
Mas, como surgiu a Romaria dos Mártires? Onde e quando teria tido início? Busquei essa resposta junto ao padre Giovane Pereira de Melo. Perguntei a ele se há algum livro que fale sobre o assunto. Contudo, ele não pode me precisar. No entanto, conversando com a professora da disciplina Monografia, Drª Laci Maria Araújo Alves, ela me disse que possuía um livro que mencionava os mártires e que falava sobre a primeira manifestação que se tornaria a Romaria dos Mártires.
Foi assim que tomei contato com o livro “Descalço sobre a terra vermelha”, de Francesc Escribano. Nele, o autor conta a vida de Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, estado de Mato Grosso. Também registra a morte de alguns religiosos, tais como padre Rodolfo Lunkenbein, Padre João Bosco Penido Burnier, eles que foram amigos de Dom Pedro.
Francesc Escribano diz que o
"povo de Ribeirão quis celebrar a missa de sétimo dia [da morte de padre João Bosco em 1976]. Depois da missa, fizeram uma procissão, que acabou na porta da delegacia na qual haviam sido torturado as duas mulheres e onde atiraram contra o sacerdote […] Os participantes da procissão derrubaram a delegacia e levantaram uma cruz em memória de João Bosco. Atualmente, a cruz está num local mais visível da cidade, ao lado da igreja de Ribeirão […] [que se] transformou no ‘Santuário dos Mártires da Caminhada’ "
Parece ter sido dessa manifestação pública que teria se dado início à realização da Romaria dos Mártires pela Igreja Católica. Busquei outras fontes, mas não consegui encontrar nada a respeito, o que deixo como sugestão a futuras pesquisas.
O Professor Ivanildo José Ferreira disse que também não saberia dizer como a Romaria dos Mártires teria tido início em nível de Brasil. Contudo, ponderou que ela vem acontecendo em lugares onde têm ocorrido grandes conflitos, principalmente de terra. Lembrou de mortes acontecidas na região centro-oeste, como em Mato Grosso a morte do padre João Bosco Burnier; do padre Josimo Morais Tavares, no atual estado de Tocantins (que na época de sua morte era território de Goiás).
Lembrou ele ainda, que nas décadas de 1970 e 1980, no Brasil como um todo e também, de modo particular, no nosso município, havia inúmeros conflitos ligados a questões da terra e que houve muitas pessoas que se destacaram em lutas específicas, seja pelo direito de acesso à terra, à cidadania ou a outros direitos (lembremo-nos que, nesse período, viva-se no Brasil o regime militar, marcado pela perda de liberdades políticas, onde torturas, assassinatos, exílios compunham uma triste rotina).
Fazer romaria é uma tradição antiga em todas as religiões, culturas, povos e raças. Pode-se dizer que nas romarias estão imbricados temas culturais, sociais, políticos etc. Todas as romarias têm sempre um objetivo a alcançar, um sonho a realizar, uma meta a atingir.
A Romaria dos Mártires também se articula à Campanha da Fraternidade, à medida que todos os anos adota o lema que é trabalhado durante a mesma, que está sempre ligado a alguma problemática social.
Na trajetória percorrida pela Romaria dos Mártires, as multidões caminham, levam seus símbolos, tais como velas; água; rosário; imagens de santos etc.
Como participante, lembro que quando teve início, na década passada, rezava-se a dezena do terço, e em cada dezena se buscava refletir e responder a expectativas dos cristãos católicos. Durante o percurso, clama-se por justiça através da Palavra; dos cantos que são escolhidos, coerentes com suas temáticas; do teatro que é apresentado, a exemplo do que ocorreu em 2006 durante a procissão, com encenação da morte da Irmã Dorothy Stang, feita por jovens da Diocese. Enfim, de maneira geral, pode-se dizer que tudo que acontece durante a Romaria, os diferentes rituais que a compõem, tudo está ligado às problemáticas da terra, das mulheres, dos indígenas, dos negros, dos deficientes, dos idosos, dos jovens, do meio ambiente, das crianças etc.
A Romaria dos Mártires é uma experiência significativa, pois os romeiros podem demonstrar seus sonhos e expressar a sua realidade. É claro que cada pessoa tem um motivo particular que a impulsiona para essa caminhada, como dona Raulina Medeiros Quedes, 59 anos, moradora no Bairro Santa Cruz, participante desde a primeira Romaria dos Mártires que aconteceu em Rondonópolis, no ano de hum mil novecentos e noventa e dois. Disse-me ela:
"eu gosto muito de participar dos movimentos, assim da Igreja, que é uma maneira de demonstrar aquele sentimento né? que a gente tem pelas pessoas que doaram suas vidas pelo bem da humanidade. Então, isso traiz assim pela época da Quaresma, é uma época de penitência, então, a gente faz um pouco também como penitência né? Então eu acredito que é um momento que a gente tira pra dar um testemunho da fé que a gente tem"
Portanto, para ela, a Romaria dos Mártires é um momento de expressão da própria fé, no tocante ao respeito a elementos da tradição católica, e também uma expressão de reconhecimento àqueles que doam suas vidas na luta pelos seus semelhantes.
Dona Maria Beltrame, 40 anos, moradora no Bairro São Sebastião, falou-me que participa da Romaria há oito anos, porque “É um pouquinho de muitas coisas, por exemplo, a caminhada a gente encontra muitas pessoas, de muitos lugares.” Sobressai na sua fala essa pluralidade de lugares de onde vêem muitas pessoas, o que demonstra que a Romaria dos Mártires realizada em Rondonópolis – MT, extrapolou os limites do município.
O jovem José Carlos Souza Costa, 19 anos, é uma dessas pessoas que vem de um outro município para participar da Romaria dos Mártires.
Morador em Juscimeira, estado de Mato Grosso, ele me disse que participa há dez anos. Tem como objetivo com essa participação “Se unir em prol da comunidade, em prol das pessoas que precisa da nossa ajuda, fazer uma revolução como os jovens fizeram nos anos 80 e fazer mudar. Isso hoje precisa ser mudado entre as pessoas”.
Percebe-se na fala de José Carlos uma dimensão mais política na razão que o motiva a participar. Ao falar de “revolução” dos jovens nos anos 80, pode ser que esteja referindo-se à participação estudantil, por exemplo, no processo de redemocratização do Brasil, que foi muito significativa.
A Romaria dos Mártires, pelo que também pode ser percebido na fala de José Carlos, não é apenas um agrupamento de pessoas dispersas, se bem que têm muitos que vão apenas fazer um passeio; outros, para namorar, encontrar conhecidos; outros para “fazer política”, por intermédio do encontro com seus eleitores; outros por razões exclusivamente religiosas etc. Portanto, as motivações até podem ser variadas, mas há uma clara demonstração de fé, de sonhos e de esperanças, ainda que não seja de todos.

Maria Aparecida Gonçalves
Graduada em História pela UFMT/CUR

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