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Rondonópolis-MT: Elementos de sua História

terça-feira, 15 de maio de 2007 · 0 comentários


RONDONÓPOLIS-MT: ELEMENTOS DE SUA HISTÓRIA

Para a elaboração deste breve histórico sobre o município de Rondonópolis, Estado de Mato Grosso, busquei referências em estudos realizados por professores pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Universitário de Rondonópolis. Entre eles, estão os estudos da Drª. Maria Elsa Markus, Dr. Paulo Augusto Mário Isaac, Dr. Flávio Antônio da Silva Nascimento, Ms. Plínio José Feix e Drª Luci Léa Lopes Martins Tesoro.
Rondonópolis é um município que está situado na região Sudeste de Mato Grosso. Tem uma extensão territorial de 4.165 km2, e atualmente possui uma população aproximada de cento e oitenta mil habitantes.
Segundo estudos realizados no Sítio Arqueológico Ferraz Egreja, os primeiros sinais de vida em terras que hoje pertencem ao município de Rondonópolis datam de pelo menos cinco mil anos atrás.
Quanto à ocupação mais recente, de acordo com Luci Léa Lopes Martins Tesoro, no ano de mil novecentos e quinze, Joaquim da Costa Marques, então Presidente da Província de Mato Grosso, promulgou o Decreto Lei nº. 395, que estabelecia uma reserva de 2.000 hectares para o patrimônio da povoação do Rio Vermelho.
O povoado Rio Vermelho foi elevado a distrito em dez de agosto de mil novecentos e quinze, ocorrendo a sua emancipação política em dez de dezembro, de mil novecentos e cinqüenta e três, que foi regulamentada pela Lei Municipal 2.777, de 22 de outubro de 1997 .
À época, o lugar era povoado por índios Bororo, quando passou a ocupá-lo também um destacamento militar na localidade de Ponte de Pedra, assim como passou a ser procurado por pessoas que vinham para a região em busca de riquezas, terra e trabalho.
Rondonópolis é considerada hoje o terceiro maior município de Mato Grosso. É tido como o município mais desenvolvido economicamente. Contudo, alguns dos estudos consultados dão conta que uma vasta extensão de terra está nas mãos de grandes latifundiários, enquanto a maioria da população é esquecida, inclusive pelo poder público, que deveria, pelo menos, prestar-lhe maior e melhor assistência. Por outro lado, são inúmeras também as problemáticas urbanas: nem todos têm acesso à água tratada, à moradia, à educação, à saúde, ao transporte etc.
É nesse contexto que as diferenças entre as classes que o compõem vão tornando-se visíveis, o que no município tem engendrado as lutas de classes, colocando em lados opostos interesses antagônicos, dando visibilidade a lutas sociais e políticas, que têm envolvido trabalhadores rurais e urbanos, levando-os a se juntarem em certos momentos para lutar por direitos, tais como o direito de acesso à terra, pelo direito ao trabalho, à saúde, ao seu bem-estar e da sua família, a melhores salários etc.
Como teria sido a passado dessa região? Em que medida ele pode contribuir para que entendamos esse presente de tensões?
Segundo pesquisa realizada por Paulo Augusto Mário Isaac , quando os primeiros colonizadores chegaram à região Sudeste de Mato Grosso, no Século XVII, encontraram aqui os “aborígines”, aos quais deram várias denominações, tais como Porrudos, Coxiponeses, Cabaçais, Coroados, Orarimugadoge e a denominação de Bororo.
Entretanto, sobre a origem do povo Bororo não se tem nada comprovado. Alguns pesquisadores supõem que eles tenham vindo do Rio Negro, passando pela Bolívia, devido a sua linguagem e aos seus adornos, que são iguais aos que são usados na região citada.
Em resultado obtido por pesquisas arqueológicas realizadas em mil novecentos e oitenta e três, na Área Indígena Tadarimana, ocupada pelo povo Bororo, Irmhild Wüst diz que
Dentro da reserva indígena e num raio de aproximadamente de 50 km, foram levantados até agora 29 sítios arqueológicos, 23 dos quais, sítios cerâmicos a céu aberto, 5 abrigos sob rocha e um sítio de arte rupestre a céu aberto .
Para Paulo Serpa ,
O processo de contato dos Bororos com a sociedade se desenvolve há três séculos e pode ser analisado em três etapas distintas. A primeira etapa inicia-se em meados do século XVIII com a descoberta do ouro na região de Cuiabá […] Essa etapa […] os bandeirantes […] promoveram várias expedições punitivas contra os Bororos […]. A segunda etapa desse processo se resume de contato de resume na ‘pacificação’ dos bororos […] Enfim, no século XIX são encerradas as expedições punitivas […] iniciou-se então, o processo de ‘civilização’ com a fundação das Colônias Militares, em mil e oitocentos e oitenta e sete, as colônias de Tereza Cristina e Isabel, ambas no Médio São Lourenço, em mil novecentos e em mil novecentos e dois as Colônias Salesianas, na área dos rios das Garças, das Mortes e Sangradouro. Em mil e novecentos e dez, a criação do S.P.I., consolidou-se o processo de ‘pacificação’ com o estabelecimento de áreas reservadas aos Bororos e a conseqüência ocupação do território tradicional pelas frentes de mineração e agropecuária. A terceira etapa se caracteriza pelo contato permanente com os elementos representantes das frentes de expansão. Essa é a etapa mais dolorosa do processo histórico do contato, quando os Bororos […] perderam seus territórios de exploração, sofreram uma depopulação inusitada e passaram a depender exclusivamente dos agentes da política indigenista oficial, por um lado pelo S.P.I. e posteriormente pela FUNAI e, por outro lado, pelos missionários salesianos. O resultado do processo de contato dos Bororo com os segmentos da sociedade nacional caracteriza-se pelo esbulho da maior parte do seu território tradicional e pela drástica redução de sua população.
No século XVIII, os Bororo ocupavam uma área de aproximadamente trezentos e cinqüenta mil quilômetros quadrados. No entanto, hoje seu território está reduzido a cinco áreas indígenas, num total de cento e quarenta e um mil e seiscentos e oitenta e um alqueires, situados em oito municípios do Estado de Mato Grosso.
Mas, a história do contato permanente dos “aborígines” da região de Rondonópolis com a população das frentes de expansão, teve início, de acordo com estudos consultados, em mil novecentos e dois, com a chegada de um grupo de pessoas vindas do estado de Goiás, grupo este que se instalou às margens do rio Vermelho, em um lugar denominado pelos migrantes, de “Vilarejo Rio Vermelho”, hoje Rondonópolis.
Em nível local, é bastante perceptível decorrências da ocupação branca no que se refere às populações indígenas aí presentes. Tomemos aqui como exemplo a Aldeia Indígena de Tadarimana, localizada no município de Rondonópolis, na bacia do rio Vermelho, às margens esquerda deste e do Rio Tadarimana, e à margem direita do Rio Jurigue. Com uma área de aproximadamente nove mil e setecentos e oitenta hectares, nela hoje vivem apenas duzentos e dois índios Bororo.
Se em toda sociedade há contradições, com os Bororo não é diferente. Atualmente, eles conseguiram um pouco de terra (não o suficiente). No entanto, segundo Paulo Augusto Mário Isaac, além dos riscos, do descaso das autoridades e de setores da população rondonopolitana, a área indígena citada, bem como a população ali residente, corre sérios riscos por práticas efetuadas por alguns índios dessa comunidade. Nela, foram constatados arrendamentos de terra para pequenos agricultores residentes na região de Rondonópolis, e também retiradas indiscriminadas de madeira e de bambu, problemas que, segundo o acima mencionado pesquisador, já em mil novecentos e noventa e cinco a FUNAI, órgão responsável pelo bem-estar dos índios, tinha conhecimento, sem ter, contudo, tomado as devidas providências para solucioná-los, “por fazer parte da política de funcionários do órgão encobrir ‘algumas irregularidades’ em troca de apoio político no órgão indigenista” .
Percebe-se, portanto, neste contexto, interesses de cunho particular imbricados em um órgão que deveria zelar pelo interesse e bem-estar dos índios da referida região. Lembrando em tempo que a comunidade indígena não se beneficiava com isso, pois a renda era apropriada apenas por alguns indivíduos.
Apesar do longo tempo que se passou da dita “pacificação” dos Bororo, estes ainda vivem no seu dia-a-dia a discriminação e a violência sofrida no passado, tanto física quanto moral, sendo tratados como seres diferentes dos outros seres humanos.
Podemos observar isso, quando índios Bororo vêm à cidade e ficam na Praça dos Carreiros (região central da cidade de Rondonópolis). A maioria das pessoas que por ali passa os olha com descaso, como que dizendo: “que degradante!”; “esse problema não é meu!”, esquecendo-se (muitas vezes, até desconhecendo), os reais motivos que levam os índios a viverem dessa maneira.
Há ainda mais um agravante, que é a expropriação de suas terras, a qual eles tentam resistir bravamente, enfrentando a ganância do mundo e dos interesses capitalistas.
Flávio Antônio da Silva Nascimento avalia que as origens do povoamento branco na região não estão completamente esclarecidas. Provavelmente, tenha ocorrido por volta de mil oitocentos e setenta e cinco, com a implantação de um destacamento militar. Mas há divergências entre os estudiosos de período sobre essa data, principalmente pela grande lacuna existente.
No tocante à ocupação branca, na avaliação de Plínio José Feix ,
O processo de ocupação da microrregião foi protagonizado, inicialmente, por três categorias de trabalhadores: os garimpeiros, que desenvolveram as atividades de extração do diamante, principalmente nos municípios de Poxoréu, Guiratinga e Itiquira; os pecuaristas, que desbravaram principalmente os cerrados para a criação de gado de corte; e os agricultores, que se fixaram em áreas de ‘terra de cultura’ para desenvolverem a agricultura familiar.
Para Carmem Lúcia Senra Itaborahi de Moura, “as primeiras famílias de agricultores se fixaram na atual cidade de Rondonópolis em 1902, que na época era distrito do município de Poxoréu, do qual se emancipou em 1953” .
Até a década de hum mil novecentos e quarenta, a migração de trabalhadores rurais vindos de outros estados foi um processo lento e espontâneo, pelo que consta em alguns estudos pesquisados. De acordo com estes, os migrantes vinham em busca do sonho de ficarem ricos, devido às descobertas de minas de ouro e pedras preciosas. Também na esperança de obterem um pedaço de terra, a fim de desenvolverem ali uma agricultura familiar. Em geral, eles eram pessoas pobres e viam nessa possibilidade de acesso à terra a chance de melhora de vida para si e suas famílias. Elas vinham também em busca de trabalho.
Na apreciação feita por Flávio Antônio da Silva Nascimento, percebe-se que ocorreram importantes transformações na região, na década de hum mil novecentos e quarenta, tais como melhoria nas estradas, estas que beneficiaram as comunicações e o fluxo de migração. Daí teve início o processo de colonizações públicas, por meio das quais os trabalhadores se estabeleceram na terra por meio de sua posse; e o processo de colonização privada, que era feito por empreendimentos particulares, o que se dava através da venda de pequenos lotes.
Esse processo de migração teria se dado por meio de várias frentes de expansão. A primeira, que vai de hum mil oitocentos e setenta e cinco a hum mil novecentos e quarenta, é denominada de Fase Pioneira, que foi marcada pela persistência dos “pioneiros”. Isso porque além de chegarem a um lugar “esmo”, encontraram nesta região a resistência indígena, apesar de os pioneiros, com sua força (arma de fogo), terem conseguido “liquidar” essa resistência, pelo menos o suficiente para fazê-los permanecer. Assim, eles conseguiram edificar neste local, um vilarejo, no intuito da realização dos seus próprios propósitos, dos quais a população indígena parece não ter feito parte.
É claro que eles não tiveram todos os seus sonhos realizados. No entanto, os migrantes que vieram para esta região na década de quarenta, puderam realizar e implantar muitos deles. Isto é, na década de um mil novecentos e quarenta, homens e mulheres, anônimos migrantes, possibilitaram o crescimento populacional (o que elevou Rondonópolis nos anos de hum mil novecentos e noventa à terceira cidade mais populosa do Estado de Mato Grosso); também, deram início ao crescimento econômico da região. Por exemplo: eles buscavam por terras de cultivo e para a criação de gado, e Rondonópolis correspondia a essa expectativa devido ao seu ecossistema.
Esse desenvolvimento teria ocorrido também, graças à atuação da Comissão Rondon, que tinha à sua frente o Marechal Cândido Rondon.
Além da instalação da linha telegráfica pela mesma, ela também contribuiu com a construção de uma estrada que ligava Goiás com Cuiabá. Daí, em hum mil novecentos e dezesseis, o povoado Rio Vermelho ter tido a sua primeira casa do comércio; em hum mil novecentos e vinte e dois, já com sua elevação a distrito e a mudança de seu nome (que de povoado Rio Vermelho passou a se chamar Rondonópolis em homenagem a Marechal Cândido Rondon), foi instalado aqui um ponto telegráfico, ocorrendo no ano de hum mil novecentos e vinte e quatro a primeira transmissão.
O primeiro diretor dessa estação teria sido Benjamim Rondon, filho do Marechal Cândido Rondon. Ele também foi responsável pela construção da primeira balsa, que era utilizada para fazer a travessia do Rio Vermelho, já que na época não havia uma ponte sobre o mesmo.
Em hum mil novecentos e quarenta e dois houve a construção de uma ponte sobre o Rio Vermelho, que logo foi levada pela enchente.
Apesar da melhora que a abertura de estrada trouxe para o povoado, este, contudo, passou por adversidades no final dos anos vinte e começo da década de trinta, tais como a estada dos “revolucionários” da Colona Prestes, que de acordo com registros consultados e com avaliações neles contidas, “saqueavam” em busca de alimentação; doenças como o “fogo selvagem”, que causou muitas mortes; enchentes; diminuição das atividades garimpeiras nas áreas próximas etc., causando o desaceleramento do crescimento populacional, na avaliação de alguns. Segundo Flávio Antônio Nascimento, em hum mil novecentos e vinte e cinco, o povoado tinha vinte e cinco pessoas, tendo ocorrido, portanto, um certo “esvaziamento” do lugar.
Contudo, no final dos anos de hum mil novecentos e quarenta foram implantadas nesta microrregião várias colônias agrícolas. Daí até hum mil novecentos e sessenta, houve um intenso movimento migratório para a mesma. Grandes proprietários de terra vieram de outros estados em busca de terra barata. Além desses, vieram outros migrantes. A maior parte deles era de trabalhadores rurais pobres, vindos do interior do Nordeste, do Sudeste, do Sul, que vinham, na visão de alguns pesquisadores, em busca de terra, mas o que a maioria deles conseguiu foi tornar-se apenas mão-de-obra barata.
Esse período teria sido a fase do capitalismo mercantil, que, segundo Plínio José Feix, “extraía parcela da renda dos trabalhadores rurais através de transações comerciais e que exigia deles, assim, um sobretrabalho para garantir sua sobrevivência” .
Na realidade, essa era a principal forma de subordinação e de exploração dos pequenos produtores e trabalhadores rurais, solidificando cada vez mais a apropriação, pelos capitalistas, das terras aqui existentes. Ou seja, os capitalistas recebiam terras doadas pelo governo ou compradas por preços irrisórios, tornando-se grandes latifundiários na região.
Houve aí, portanto, uma intensificação da migração; da apropriação privada de terras e do desenvolvimento econômico e social da região. Esse movimento ficou conhecido como a Fase de Fronteira Agrícola.
É claro que a ação do Estado foi de fundamental importância para a ocupação e desenvolvimento socioeconômico da microrregião aqui tratada, pois já com a “Marcha para o Oeste” o governo doava terras, principalmente para a iniciativa privada.
Neste contexto, na avaliação de alguns estudiosos, o que teria favorecido o crescimento da economia foi a construção de estradas, pois Rondonópolis estava situada em uma posição geográfica privilegiada. Assim, tornou-se entroncamento de duas rodovias - uma ligando Cuiabá – Rondonópolis – Campo Grande (atual BR 163), e outra ligando Cuiabá – Rondonópolis – Goiás (atual BR 364).
Já, o período entre hum mil novecentos e sessenta e hum mil novecentos e oitenta, conhecido como Frente de Integração Econômica, teve como principal característica o processo de expansão do capitalismo na agricultura, com grande concentração de terras nas mãos de empresários, o que gerou maior aceleração na ocupação do território e que trouxe consigo a chamada “modernização”, que acabou por “revolucionar” a agricultura e a pecuária, que contaram com incentivos governamentais, por intermédio de programas, tais como: POLOCENTRO, SUDAM, PRODOEST, PROTERRA.
O maior impulso para o desenvolvimento foi o cultivo da soja, iniciado na década de setenta, tornando-se o principal produto de exportação. Isso se deve principalmente à inovação tecnológica na produção, o que fez com que a região desenvolvesse relações comerciais nesse setor com outros setores da economia, relações essas em nível local, regional e internacional.
Rondonópolis se tornou um dos municípios de grandes plantações de soja, do Estado de Mato Grosso, o que pode ser constatado em épocas de plantio, pois até em regiões como a que liga Guiratinga a Barra do Garças, onde até pouco tempo atrás se via apenas plantações de arroz e feijão, hoje, praticamente só se vê o verde da soja.
A inovação tecnológica na produção fez com que a partir daí ocorresse a supervalorização da terra. Com isso, os posseiros acabaram por ser expulsos da mesma, o que levou muitos desses trabalhadores rurais para a cidade de Rondonópolis, agravando ainda mais os problemas sociais já existentes.
Nessa época, até mesmo pela abundância de mão-de-obra, chegou a ser praticada a escravidão por dívidas, prática realizada em muitas grandes fazendas. Aliás, ainda hoje não é incomum a constatação desse tipo de escravidão no estado de Mato Grosso.
É nesse processo de desenvolvimento do capitalismo que se agravaram ainda mais as contradições geradas por este sistema em Rondonópolis, como avalia Maria Elsa Markus, ao dizer que, nesse contexto,
ganha importância […] a questão urbana, por conta do seu agravamento em Rondonópolis, no mesmo período, principalmente com o aumento populacional, que não vem sendo acompanhado, na mesma medida, de garantias necessárias à inclusão social […] o desemprego, o subemprego, a falta de moradia, de saneamento básico, de acesso à escola […] a saúde pública está longe de assegurar as condições mais elementares àqueles que demandam os seus serviços; há um aumento assustador da criminalidade, do tráfico de drogas, da prostituição; o salário é humilhante […] sem esquecer a acintosa existência de nichos de prosperidade e riqueza que, não se há de ter dúvida, contemplam uma minoria de pessoas, através do aviltamento da minoria.
Muitos desses aspectos acima situados para serem constatados basta ir até a região central de Rondonópolis, onde durante o dia há um crescimento cada vez maior de pessoas mendigando; à noite é possível ver jovens se prostituindo e fazendo uso de drogas. Isso se deve principalmente à má distribuição de renda, ou seja, um grande acúmulo de riqueza nas mãos de poucos, enquanto a maioria perece, como se não fizesse parte dessa sociedade.
Para Plínio Feix, “a questão agrária e a questão urbana são as duas questões sociais mais explosivas na microrregião de Rondonópolis”.
Com pouco mais de 50 anos de emancipação político-administrativa, com uma população aproximada de 180 mil habitantes, Rondonópolis se tornou conhecida como a “Capital Nacional do Agronegócio”.
No entanto, o modelo de desenvolvimento praticado na região tem trazido benefícios para os empresários capitalistas e acentuado cada vez mais a exclusão social, pois enquanto o agronegócio tem estado em franca expansão nesses últimos anos, na periferia da cidade surgem, a cada dia, bairros carentes, sem nenhuma infra-estrutura.
Maria Aparecida Gonçalves
Graduada em História pela UFMT/CUR

Falando um pouco sobre religião

segunda-feira, 14 de maio de 2007 · 0 comentários

ROMARIA DOS MÁRTIRES: ORIGENS E ALGUNS SIGNIFICADOS

“Mártir é aquele que dá um sinal extremo de sua fé em Deus e testemunho de amor aos seus irmãos até o sacrifício extremo, sendo o testemunho o que permanece fiel até o fim”.
(Pe. Giovane Pereira de Melo)

Na América Latina, desde o início de sua dita “colonização” (processo que ainda hoje é avaliado como em andamento), o martírio se tornou um grito tanto pela vida quanto pela fé. Devido a isso, a Igreja Católica tem buscado manter sempre viva a memória de mártires que deram suas vidas na tentativa de mudar a realidade das pessoas menos favorecidas da sociedade.
É neste contexto que passou a ser realizada, a partir de hum mil novecentos e noventa e dois, em Rondonópolis-MT, a Romaria dos Mártires, que vem constituindo-se como mais uma forma de manifestação pública da fé religiosa. Mas não só, como poderemos ver mais adiante.
As romarias estão construídas simbolicamente dentro do sistema de significações do imaginário tradicional da religiosidade popular, compartilhando, no meu entendimento, das mesmas significações da procissão.
Em Rondonópolis – MT, ela acrescenta o fato social de congregar pessoas de diversos grupos sociais, inclusive de lugares diferentes e até mesmo distantes, reunindo pessoas de toda a micro-região, e não necessariamente só católicos.
Castro M. Bartolomé Ruiz define a romaria como “um espaço social de encontro de diversos grupos, e por isso é um espaço de transmissão e partilha de imaginários, símbolos e significados” .
Com o passar do tempo, tal como na religião, nas romarias também foram acontecendo transformações. Assim, “Foram organizadas romarias novas para símbolos novos: Romaria de Canudos, Romaria de Zumbi, Romaria da cana, Romaria da terra, Romaria do trabalho etc.” Acrescente-se a essas, a Romaria dos Mártires, que é uma homenagens aos religiosos e leigos assassinados por seu engajamento em lutas sociais e políticas em prol dos menos favorecidos, isto é, em causa dos oprimidos e dos excluídos.
Os Mártires lembrados pela Igreja Católica no Brasil e, em especial, pela Diocese de Rondonópolis-MT, quando da realização da Romaria dos Mártires, são aqueles que deram sua vida pelas causas dos acima mencionados, como, portanto, ocorre noutros lugares do país.
Como sabemos, a cada ano surgem novos conflitos no campo, entre os latifundiários e os excluídos da terra. E é nesses processos, por exemplo, que ganham visibilidade essas pessoas - os mártires, religiosos ou não, que arriscam suas vidas, confrontando, denunciando, organizando etc., e assim buscando sanar ou ao menos amenizar esses conflitos.
Muitas dessas pessoas são perseguidas, torturadas, assassinadas, uma maneira não só de conter a luta, mas de desaconselhar a tantos outros que possam querer dela fazer parte.
Em vista disso, minha Monografia servirá também para manter viva a memória desses lutadores, pessoas essas que protagonizam ações, tomam iniciativa em lutas a favor dos injustiçados.
O Professor Ivanildo José Ferreira em entrevista que me concedeu, contou-me que no ano de hum mil novecentos e noventa e dois, quando se deu a primeira Romaria dos Mártires em Rondonópolis, haviam muitas questões envolvendo trabalhadores em luta pela posse e permanência na terra, assim como questões indígenas latentes, como a busca de garantia de seus territórios, de dignidade às suas sobrevivências etc.
Nesse sentido, percebe-se que os temas que têm norteado ao longo dos anos a ocorrência da Romaria dos Mártires, vêm sempre buscando dar um enfoque maior às questões que procuram fortalecer as lutas sociais e políticas.
Segundo o Professor Ivanildo
"Só para se ter uma idéia, aqui, o primeiro grande assentamento na zona rural tinha sido a Gleba Rio Vermelho. Logo depois a Cascata, Várzea do Ouro, enfim. Mas, assim, de movimento grande foi a Gleba Rio Vermelho, que tinha mais ou menos quatro anos de assentados. Essas primeiras Romarias tentaram fortalecer esses movimentos. E até me parece que valeu: o número de assentamentos que a gente tem aqui na região é muito grande".
Portanto, se no seio desses movimentos pela terra se gestaram tantos mártires, lembrá-los, a exemplo do que acontece na Romaria, é manter acesa a chama da luta, que, pelo que se pode entender da fala do Prof. Ivanildo, tem dado resultados, posto que muitos trabalhadores vêm conquistando um pedacinho de chão.
Assim, pode-se dizer que a Romaria dos Mártires tem como uma de suas finalidades lembrar às pessoas que dela participam, aqueles (as) que morreram em defesa da vida de outros; lembrar que Mártires são aqueles que não desistem da luta por uma vida melhor para seus semelhantes, mesmo que isso signifique morrer por esse ideal.
A Igreja Católica tem valorizado a presença desses mártires na construção de sua trajetória, o que é visível na Diocese de Rondonópolis, através das paróquias que a compõem, que buscam também avivar por meio da Romaria dos Mártires a memória dos seus fiéis, pois um povo sem memória é um povo sem identidades, sem resistência e sem história. É uma maneira de não deixar cair no esquecimento esses que tanto merecem homenagem e respeito pelo desempenho que tiveram em lutas coletivas por justiça social. Quem sabe assim, por meio dos exemplos deixados pelos Mártires ali homenageados, mantenha-se acesa a chama da solidariedade entre as pessoas, que estão cada vez mais distantes umas das outras, cada uma vivendo por si, sem preocupar-se com o seu semelhante.
Castro M. Bartolomé Ruiz pondera que as romarias “são constituídas com a significação de unir a fé com o compromisso social e político.” Isso é perceptível na Romaria dos Mártires, pois quem dela participa pode observar o caráter religioso, social e político que a compõem através dos grupos ali reunidos, tais como as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), etnias indígenas, sindicatos e outros movimentos sociais e entidades organizadas. Também se percebe a presença de políticos, alguns por serem ligados a algum movimento social ou a grupos da Igreja Católica, e outros somente com o interesse de marcar presença em um evento que tem grande repercussão na imprensa, e que, obviamente, reúne um significativo número de eleitores.
Mas, como surgiu a Romaria dos Mártires? Onde e quando teria tido início? Busquei essa resposta junto ao padre Giovane Pereira de Melo. Perguntei a ele se há algum livro que fale sobre o assunto. Contudo, ele não pode me precisar. No entanto, conversando com a professora da disciplina Monografia, Drª Laci Maria Araújo Alves, ela me disse que possuía um livro que mencionava os mártires e que falava sobre a primeira manifestação que se tornaria a Romaria dos Mártires.
Foi assim que tomei contato com o livro “Descalço sobre a terra vermelha”, de Francesc Escribano. Nele, o autor conta a vida de Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, estado de Mato Grosso. Também registra a morte de alguns religiosos, tais como padre Rodolfo Lunkenbein, Padre João Bosco Penido Burnier, eles que foram amigos de Dom Pedro.
Francesc Escribano diz que o
"povo de Ribeirão quis celebrar a missa de sétimo dia [da morte de padre João Bosco em 1976]. Depois da missa, fizeram uma procissão, que acabou na porta da delegacia na qual haviam sido torturado as duas mulheres e onde atiraram contra o sacerdote […] Os participantes da procissão derrubaram a delegacia e levantaram uma cruz em memória de João Bosco. Atualmente, a cruz está num local mais visível da cidade, ao lado da igreja de Ribeirão […] [que se] transformou no ‘Santuário dos Mártires da Caminhada’ "
Parece ter sido dessa manifestação pública que teria se dado início à realização da Romaria dos Mártires pela Igreja Católica. Busquei outras fontes, mas não consegui encontrar nada a respeito, o que deixo como sugestão a futuras pesquisas.
O Professor Ivanildo José Ferreira disse que também não saberia dizer como a Romaria dos Mártires teria tido início em nível de Brasil. Contudo, ponderou que ela vem acontecendo em lugares onde têm ocorrido grandes conflitos, principalmente de terra. Lembrou de mortes acontecidas na região centro-oeste, como em Mato Grosso a morte do padre João Bosco Burnier; do padre Josimo Morais Tavares, no atual estado de Tocantins (que na época de sua morte era território de Goiás).
Lembrou ele ainda, que nas décadas de 1970 e 1980, no Brasil como um todo e também, de modo particular, no nosso município, havia inúmeros conflitos ligados a questões da terra e que houve muitas pessoas que se destacaram em lutas específicas, seja pelo direito de acesso à terra, à cidadania ou a outros direitos (lembremo-nos que, nesse período, viva-se no Brasil o regime militar, marcado pela perda de liberdades políticas, onde torturas, assassinatos, exílios compunham uma triste rotina).
Fazer romaria é uma tradição antiga em todas as religiões, culturas, povos e raças. Pode-se dizer que nas romarias estão imbricados temas culturais, sociais, políticos etc. Todas as romarias têm sempre um objetivo a alcançar, um sonho a realizar, uma meta a atingir.
A Romaria dos Mártires também se articula à Campanha da Fraternidade, à medida que todos os anos adota o lema que é trabalhado durante a mesma, que está sempre ligado a alguma problemática social.
Na trajetória percorrida pela Romaria dos Mártires, as multidões caminham, levam seus símbolos, tais como velas; água; rosário; imagens de santos etc.
Como participante, lembro que quando teve início, na década passada, rezava-se a dezena do terço, e em cada dezena se buscava refletir e responder a expectativas dos cristãos católicos. Durante o percurso, clama-se por justiça através da Palavra; dos cantos que são escolhidos, coerentes com suas temáticas; do teatro que é apresentado, a exemplo do que ocorreu em 2006 durante a procissão, com encenação da morte da Irmã Dorothy Stang, feita por jovens da Diocese. Enfim, de maneira geral, pode-se dizer que tudo que acontece durante a Romaria, os diferentes rituais que a compõem, tudo está ligado às problemáticas da terra, das mulheres, dos indígenas, dos negros, dos deficientes, dos idosos, dos jovens, do meio ambiente, das crianças etc.
A Romaria dos Mártires é uma experiência significativa, pois os romeiros podem demonstrar seus sonhos e expressar a sua realidade. É claro que cada pessoa tem um motivo particular que a impulsiona para essa caminhada, como dona Raulina Medeiros Quedes, 59 anos, moradora no Bairro Santa Cruz, participante desde a primeira Romaria dos Mártires que aconteceu em Rondonópolis, no ano de hum mil novecentos e noventa e dois. Disse-me ela:
"eu gosto muito de participar dos movimentos, assim da Igreja, que é uma maneira de demonstrar aquele sentimento né? que a gente tem pelas pessoas que doaram suas vidas pelo bem da humanidade. Então, isso traiz assim pela época da Quaresma, é uma época de penitência, então, a gente faz um pouco também como penitência né? Então eu acredito que é um momento que a gente tira pra dar um testemunho da fé que a gente tem"
Portanto, para ela, a Romaria dos Mártires é um momento de expressão da própria fé, no tocante ao respeito a elementos da tradição católica, e também uma expressão de reconhecimento àqueles que doam suas vidas na luta pelos seus semelhantes.
Dona Maria Beltrame, 40 anos, moradora no Bairro São Sebastião, falou-me que participa da Romaria há oito anos, porque “É um pouquinho de muitas coisas, por exemplo, a caminhada a gente encontra muitas pessoas, de muitos lugares.” Sobressai na sua fala essa pluralidade de lugares de onde vêem muitas pessoas, o que demonstra que a Romaria dos Mártires realizada em Rondonópolis – MT, extrapolou os limites do município.
O jovem José Carlos Souza Costa, 19 anos, é uma dessas pessoas que vem de um outro município para participar da Romaria dos Mártires.
Morador em Juscimeira, estado de Mato Grosso, ele me disse que participa há dez anos. Tem como objetivo com essa participação “Se unir em prol da comunidade, em prol das pessoas que precisa da nossa ajuda, fazer uma revolução como os jovens fizeram nos anos 80 e fazer mudar. Isso hoje precisa ser mudado entre as pessoas”.
Percebe-se na fala de José Carlos uma dimensão mais política na razão que o motiva a participar. Ao falar de “revolução” dos jovens nos anos 80, pode ser que esteja referindo-se à participação estudantil, por exemplo, no processo de redemocratização do Brasil, que foi muito significativa.
A Romaria dos Mártires, pelo que também pode ser percebido na fala de José Carlos, não é apenas um agrupamento de pessoas dispersas, se bem que têm muitos que vão apenas fazer um passeio; outros, para namorar, encontrar conhecidos; outros para “fazer política”, por intermédio do encontro com seus eleitores; outros por razões exclusivamente religiosas etc. Portanto, as motivações até podem ser variadas, mas há uma clara demonstração de fé, de sonhos e de esperanças, ainda que não seja de todos.

Maria Aparecida Gonçalves
Graduada em História pela UFMT/CUR

doação de medula óssea

sexta-feira, 13 de abril de 2007 · 0 comentários

Além do recrutamento de doadores no registro nacional, acreditamos que desmistificar e divulgar a doação de medula óssea é o primeiro passo para promover a conscientização de nossa sociedade. a participação em eventos e algumas parcerias são importantes para disseminar a informação para toda população.
divulgue vc tambÉm.

hospitais que realizam trasplantes pelo sus (sistema Único de saúde).

o hospital santa isabel de blumenau sc

http://www.santaisabel.com.br/pt_br/cihdott.php

hospital são paulo
http://www.saopaulo.sp.gov.br/sis/lenoticia.php?id=92556

hospital santa casa de misericórdia de são paulo
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MÁRTIRES: HERÓIS DA VIDA REAL

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007 · 1 comentários

“mártires foi aquelas pessoas que morreram a favor dos irmãos, em beneficio à alguém”
(Ana Lúcia de Larceda
)


Esta unidade traz um pouco da biografia de alguns mártires, que a partir da Romaria dos Mártires tiveram uma oportunidade a mais para deixar o anonimato e se tornar um pouco mais conhecidos.
Segundo alguns textos que li, os mártires da Bíblia são aqueles que deram suas vidas em defesa da Palavra e dos ensinamentos de Jesus Cristo. Já hoje, são considerados mártires aqueles que dão suas vidas para libertar as pessoas que sofrem ao buscar dignidade de vida para si e para sua família, pois a regra geral do sistema capitalista é que quem tem, sempre terá mais, e quem não tem vai continuar sempre assim, porque não se esforça para fazer diferente. Daí, quando surgem esses homens e mulheres que têm a coragem de mostrar suas caras e exigir a partilha de bens que são socialmente produzidos, ou então que foram disponibilizados pela própria natureza, são perseguidos, liquidados, massacrados, além de outros tipos de atrocidades que acabam enfrentando. Mas isso não intimida essas pessoas de coragem, pois elas vão até o último instante de suas vidas perseguindo o seu propósito.
Na visão de setores da Igreja Católica, para terem essa força muitos dos mártires têm Deus com eles, que os guia e os conforta com suas palavras. Sabem que nunca estão sozinhos e sabem que por meio da doação de suas vidas outros, pelo exemplo deixado, darão continuidade a essa luta. E que lá no futuro, a partir do conjunto desses esforços a favor de um novo tipo de sociedade, poderá acontecer a tão esperada libertação dos oprimidos e não haverá mais opressão e exclusão.
Para a Igreja Católica, o mártir maior é Jesus Cristo. Com ele estão os mártires da fé cristã, homens e mulheres, que fazem parte do mesmo grupo ou comunidade. Estão aqueles que apóiam e se solidarizam com a mesma causa e, conscientemente, assumem na sua vida a luta em busca de uma melhor distribuição de renda e de terra para os pobres, enfim, que lutam por mais justiça social. Essas pessoas enfrentam o martírio por causa do seu engajamento explícito e concreto em projetos sociais que nem sempre - ou nunca - são de interesse das elites políticas e econômicas.
O Professor Ivanildo em entrevista que me concedeu, disse-me que em uma entrevista dada por Dom Osório W. Stoffel, este teria assim definido o que é um mártir:
Não é preciso que a pessoa perca sua vida numa luta específica para ser um mártir. A mãe que tem um bebê de colo e por ele faz o melhor de sua vida, é uma mártir [mas] nem toda mãe é uma mártir, mas uma mãe que não se alimenta por alguns dias e ainda assim consegue dar mamar para o seu filho, é uma mártir.
A seguir, elenco os mártires que vêm sendo lembrados e reverenciados durante a realização da Romaria dos Mártires, nos vários anos de sua história aqui em Rondonópolis – MT.

PADRE JOÃO BOSCO PENIDO BURNIER

Nasceu no dia onze de junho, de hum mil novecentos e dezessete (1917), em Juiz de Fora, MG. Missionário, ele atuou entre os índios na Prelazia de Diamantino-MT. Foi morto no dia dez de outubro, de hum mil novecentos e setenta e seis (1976), quando estava com Dom Pedro Casaldáliga, na cidade de Ribeirão Bonito, perto de Barra do Garças. Eles foram socorrer duas mulheres camponesas, uma delas grávida, que estavam sendo torturadas na delegacia. Diz-se que os gritos delas eram ouvidos por toda a cidade.
Quando o Pe. João Bosco foi interceder por elas, foi agredido, levando uma coronhada e um tiro fatal dado por um policial.
Pe. João Bosco agonizou por muitas horas, oferecendo a sua vida pelos índios e pelo povo. Invocando a Jesus, ele teria dito a Dom Pedro: “Dom Pedro acabamos nossa tarefa”.

MARGARIDA MARIA ALVES

Nasceu em cinco de agosto, de hum mil novecentos e quarenta e três (1943), em Alagoa Grande, na Paraíba. Foi a filha mais nova de nove irmãos. No entanto, isso não foi impedimento para que fosse uma das primeiras mulheres a lutar pelos direitos daqueles que até hoje trabalham na terra. O contato permanente com o setor latifundiário, que começou desde muito cedo, devido à necessidade da manutenção da família, estimulou seus desejos para lutar pelo trabalhador rural. Pelo fato de ser católica, Margarida teve uma grande influência do Padre Geraldo, para ingressar no Sindicato Rural de Alagoa Grande, na Paraíba. Caracterizada pela constância e disposição do trabalho, chegou a ser tesoureira do mesmo e, em hum mil novecentos e setenta e três (1973), foi eleita presidenta, sucessivamente, até mil novecentos e oitenta e dois (1982).
A sindicalista lutava pela defesa dos direitos do homem do campo; pelo décimo terceiro salário; registro em carteira; jornada de oito horas e férias obrigatórias. Foi uma das fundadoras do Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural, cuja finalidade é, até hoje, contribuir no processo de construção de um modelo de desenvolvimento rural e urbano sustentável, a partir do fortalecimento da agricultura familiar. Durante seus doze anos dentro do Sindicato foram movidas mais de seiscentas ações trabalhistas contra os usineiros e senhores de engenho da região da Paraíba.
Em seus anos de luta, nunca se registrou, na justiça, uma perda de alguma questão do trabalho a favor do trabalhador rural. A sua luta era em prol dos trabalhadores, motivo pelo qual sofreu várias ameaças e atentados à sua integridade física. Como resultado de sua liderança, aproximadamente setenta e três reclamações trabalhistas contra engenhos e contra a Usina Tanques foram movidas, o que, no período ditatorial, produziu uma forte repercussão e atraiu o ódio de latifundiários locais, que chegaram a ameaçá-la e intimidá-la. Margarida, com sua personalidade forte e incansável, não se deixou abater por esses efeitos, pelo contrário, tornava-os públicos e fazia questão de respondê-los.
Margarida morreu assassinada, em doze de agosto, de hum mil novecentos e oitenta e três (1983), defendendo os ideais e direitos dos trabalhadores rurais. Para ela a vida tinha um só objetivo, e a frase que sempre fará referência a ela diz: "É melhor morrer na luta do que morrer de fome". Tinha quarenta 40 anos de idade, leiga e foi Presidente de Sindicato dos Trabalhadores, membro da Comissão Pastoral da Terra – CPT, da Diocese de Guarabira na Paraíba.
Enquanto brincava com seu filho, o assassino lhe apareceu na frente e disparou-lhe no rosto uma carga de pregos e chumbo grosso. Severino Cassimiro, seu esposo, que estava a poucos metros, assistiu petrificado a tragédia. Quando avisada de que sua vida corria perigo, ela simplesmente respondia: “Da luta eu não fujo”.

SANTOS DIAS DA SILVA

Nasceu em vinte e dois de fevereiro, de hum mil novecentos e quarenta e dois, na fazenda Paraíso, município de Terra Roxa, no Estado de São Paulo.
Seus pais, Jesus Dias da Silva e Laura Amâncio Vieira, tinham mais sete filhos, além de Santos, o primeiro braço no potencial de trabalho da família. Durante quarenta anos sua família trabalhou como meeira em diversas fazendas na mesma região.
Católico, desde a adolescência participava das atividades religiosas em sua terra natal, entre elas a Legião de Maria. A movimentação social da década de 1960 influenciou sua atitude e de muitos outros trabalhadores rurais. Entre hum mil novecentos e sessenta e hum mil novecentos e setenta, junto com outros empregados da Fazenda Guanabara, participou de um movimento por melhores condições de trabalho e salário. Por isso, sua família foi expulsa da colônia em que morava e teve de morar na cidade, numa casa alugada.
Os pais e os irmãos continuaram a trabalhar na roça, como bóias-frias. Santo resolveu procurar outras oportunidades e foi morar em Santo Amaro, na região sul da capital de São Paulo, área de grande concentração de indústrias. Ali, conseguiu trabalho como ajudante geral na Metal Leve, empresa de componentes metalúrgicos. Participou também das Comunidades Eclesiais de Base - CEBs, das quais foi um esteio propagador
No primeiro dia da paralisação, ocorrida em vinte e oito de outubro, de hum mil novecentos e setenta e nove (1997), as subsedes do Sindicato, abertas para abrigar os comandos de greve, foram invadidas pela Polícia Militar, que prendeu mais de cento e trinta pessoas. Sem o apoio do sindicato e com a intensa repressão policial sobre sua ação, os metalúrgicos passaram a se reunir na Capela do Socorro, sendo a Zona Sul a região de maior concentração da categoria. No dia trinta, Santo Dias, como parte do comando de greve, saiu da Capela do Socorro, para engrossar um piquete na frente da fábrica Sylvânia e discutir com os operários que entravam no turno das quatorze horas.
No dia trinta de outubro, de hum mil novecentos e setenta e nove (1997), viaturas da PM chegaram, e Santo Dias tentou dialogar com os policiais para libertar companheiros presos. A polícia agiu com brutalidade e o PM atirou em Santo Dias pelas costas. Ele foi levado pelos policiais para o Pronto Socorro de Santo Amaro, mas já estava morto. O corpo de Santo Dias só não “desapareceu” por conta da coragem de Ana Maria, sua esposa. Ela entrou no carro que transportava seu corpo para o Instituto Médico Legal. Apesar de abalada emocionalmente e pressionada pelos policiais, a descer, não cedeu.
Divulgada a notícia de sua morte pelos vários meios de comunicação, seu corpo seguiu para o velório na Igreja da Consolação. No dia trinta e um de outubro, trinta mil pessoas saíram às ruas da capital para acompanhar o enterro e protestar contra a morte do líder operário, que lutava pelo livre direito de associação sindical e de greve, e contra a ditadura.

SILVIA MARIBEL ARRIOLA

Mulher de sorriso longo, religiosa, salvadorenha de trinta anos, era pequena, de aparência frágil, mas forte quando se tratava de encontrar uma solução, ainda que arriscada, em situações perigosas.
Ela morreu em um acampamento destruído pela Guarda Nacional, ao Oeste de San Salvador.
Esta mulher salvadorenha, juntamente com outras companheiras, tornou-se religiosa do povo a serviço das maiorias pobres do seu país, uma vocação que abraçou com muito amor e levou até às últimas conseqüências.

NESTOR PAZ ZAMORA

Filho de um general boliviano, Nestor ingressou num seminário e estudou teologia. Desde cedo, ligou-se às CEBs. Mais tarde, como estudante de medicina, incorporou-se à Guerrilha de Teoponte (cidade de Teoponte), na Bolívia.
A Bolívia é um país essencialmente cristão, em que nem todos estão satisfeitos com a simples participação em cultos. Muitos se engajam em lutas por transformação social e possibilitam mudanças históricas.
Nestor foi um militante da Igreja da Libertação na Bolívia. Toda a sua vivência de cristão militante foi a favor de seu povo, lutando por uma terra nova, onde o amor fosse a lei fundamental. Morreu de fome, no dia oito de outubro, de mil novecentos e setenta (1970).

TITO ALENCAR LIMA

Nascido em Fortaleza – CE, no dia quatorze setembro, de hum mil novecentos e quarenta e cinco (1940), filho de Ildefonso Rodrigues de Lima e Laura Alencar Lima.
Desejando uma vivência evangélica mais radical e a serviço dos demais, escolheu a ordem dominicana para nela consagrar-se como religioso.
Estudou em Fortaleza com os padres jesuítas. Foi dirigente regional e nacional da JEC (Juventude Estudantil Católica). Em hum mil novecentos e sessenta e cinco (1965), ingressou na Ordem dos Dominicanos, sendo ordenado sacerdote em mil novecentos e sessenta e sete (1967); e também foi aluno de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP).
Militante da Ação Estudantil Católica, foi seu coordenador para o Nordeste. Foi preso em hum mil novecentos e sessenta e oito (1968), sob a acusação de ter alugado o sítio onde se realizou o Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em lbiúna - SP.
Foi preso novamente em quatro de novembro, de hum mil novecentos e sessenta e nove (1969), em companhia de outros padres dominicanos, acusados de terem ligações com a Ação Libertadora Nacional (ALN), e Carlos Marighela.
Frei Tito foi torturado durante quarenta dias pela equipe do delegado Sérgio Fleury, e transferido depois para o Presídio Tiradentes, onde permaneceu até dia dezessete de dezembro. Nesse dia, foi levado para a sede da Operação Bandeirantes - Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa (DOI-CODI/SP), quando o Capitão Maurício Lopes Lima lhe disse: "Agora você vai conhecer a sucursal do inferno".
E foi o que ocorreu. Torturado durante dois dias, pendurado no pau-de-arara, recebendo choques elétricos na cabeça, órgãos genitais, nos pés, mãos, ouvidos, com socos, pauladas, "telefones", palmatórias, "corredor polonês", "cadeira do dragão", queimaduras com cigarros, tudo acompanhado de ameaças e insultos. A certa altura, o Capitão Albernaz lhe ordenou que abrisse a boca para receber a hóstia sagrada, introduzindo-lhe um fio elétrico que queimou-lhe a boca a ponto de impedi-lo de falar.
Frei Tito foi deixado durante toda uma noite no pau-de-arara e, no dia seguinte, tentou o suicídio com uma gilete, sendo conduzido às pressas para o Hospital do Exército, do Cambuci, onde ficou cerca de uma semana sob tratamento médico sem, contudo, deixar de ser submetido a tortura psicológica constante.
Banido do país, em treze de janeiro, de hum mil novecentos e setenta e um (1971), com outros prisioneiros políticos, em troca da liberdade de um embaixador da Alemanha no Brasil, viajou para o Chile e depois para a Itália e França.
Após algum tempo, instalou-se na comunidade dominicana de Arbresle, tentando desesperadamente lutar contra os crescentes tormentos de sua mente, abalada profundamente pela tortura. Já no exílio, foi condenado pela 2ª Auditoria a uma pena de um ano e meio de reclusão, em vinte e três de fevereiro, de hum mil novecentos e noventa e três (1973).
No dia sete de agosto, de hum mil novecentos e noventa e quatro (1974), com trinta e um anos de idade, Frei Tito se enforcou, pendurando-se em uma árvore. Foi enterrado no Cemitério Dominicano de Sainte Marie de la Tourette, próximo a Lyon, na França. Em vinte e cinco de março, de hum mil novecentos e oitenta e três (1983), seus restos mortais foram trasladados para o Brasil, acolhidos solenemente na Catedral da Sé, em São Paulo, com missa rezada por D. Paulo Evaristo Arns, tendo sido enterrado no jazigo de sua família, em vinte e seis de março do mesmo ano, em Fortaleza-CE.

PE. EZEQUIEL RAMIN

Tinha trinta e dois anos. Nasceu na Itália, em hum mil novecentos e cinqüenta e três (1953). Foi missionário na diocese de Ji-Paraná, Rondônia. Membro da Congregação dos Combonianos, veio para o Brasil em meados de hum mil novecentos e oitenta e três (1983). Assumiu a causa dos trabalhadores sem-terra e dos índios. Ganhou a confiança dos Suruí, que iam procurá-lo para expor os problemas da aldeia.
Quando, em hum mil novecentos e oitenta quatro (1984), o Pe. Ezequiel chegou a Cacoal, encontrou uma caminhada já feita. Havia comunidades fortes e lideranças bem conscientes de suas responsabilidades. Não teve dificuldade de se inserir. A idade, pouco mais de trinta anos, dava-lhe o entusiasmo que o desafio exigia. Além do mais, Ezequiel tinha uma sensibilidade, por certas questões, superior a de tantos outros padres. Foi quando, em uma região entre Mato Grosso e Rondônia, na área pastoral de Cacoal, apareceu uma placa: “Fazenda Catuva, proibida a entrada”.
Coisa estranha: duzentas e cinqüenta famílias trabalhavam aquelas terras há mais de dois anos, convivendo com os únicos possíveis donos, os índios Suruí, com os quais, porém, as famílias tinham conseguido estabelecer relações de respeito e amizade. Porém, apareceu a placa e, com a placa, uma cerca e uma porteira; e gente armada, do outro lado, inibindo qualquer tentativa de aproximação. Os donos? Dois irmãos: Omar e Osmar, fazendeiros. No papel, proprietários de 2.499 hectares. Na prática, tentando abocanhar 50 mil hectares (alguém falava até em 100 mil); passando por cima dos índios, das famílias de posseiros e de suas roças.
A questão chegou à paróquia. Pe. Ezequiel tinha chegado há pouco tempo. Tinha demonstrado sensibilidade pelos problemas do povo. Havia coisas que o incomodavam profundamente: as desigualdades sociais, sobretudo; os muitos que não têm nada e os poucos que têm tudo; as injustiças; a arrogância de quem tenta se impor pelas armas ou pela manipulação das leis. Em várias oportunidades ele tinha tocado nesses assuntos, inclusive nas homilias e celebrações. Era de seu estilo trazer a Palavra de Deus para a realidade das pessoas. O povo ouvia. Alguns simpatizavam, outros o criticavam. Uns poucos manifestavam publicamente seu desapontamento, tanto que o padre passou a gravar suas homilias, para que suas palavras não fossem distorcidas e usadas como armas contra ele.
No dia vinte e quatro de julho, de hum mil novecentos e oitenta e cinco (1985), padre Ezequiel foi ao encontro dos posseiros na Fazenda Catuva, no município de Aripuanã. Na volta, na saída de uma curva, o ataque. Sete homens armados (jagunços de fazendeiros da região), em posição de tiro, esperavam. Dois deles abriram fogo, a uns trinta metros de distância. Estava selado o seu fim.

NATIVO DA NATIVIDADE DE OLIVEIRA

Presidente do Sindicato dos Lavradores Rurais de Carmo do Rio Verde – Goiás. Foi assassinado em vinte e três de outubro, de hum mil novecentos e oitenta e cinco (1985).

DOM OSCAR ARNULFO ROMERO Y GADAMEZ

Nasceu em quinze de agosto, de hum mil novecentos e dezessete (1917), em Ciudad Barrios, em El Salvador. Sua família era numerosa e pobre. Quando criança, sua saúde inspirava cuidados. Com apenas treze anos entrou no seminário. Foi para Roma completar o curso de Teologia, com vinte anos. Ordenou-se sacerdote em hum mil novecentos e quarenta e três (1943).
Retornou a El Salvador, na função de pároco. Era um sacerdote generoso e atuante: visitava os doentes, lecionava religião nas escolas, foi capelão do presídio; os pobres carentes faziam fila na porta de sua casa paroquial, pedindo e recebendo ajuda.
Durante vinte e seis anos, na função de vigário, padre Oscar Romero conheceu a miséria profunda que assolava seu pequeno país. Em hum mil novecentos e setenta e sete (1977), foi nomeado Arcebispo de El Salvador. No dia vinte e quatro de março, de hum mil novecentos e oitenta (1980), Dom Romero foi fuzilado em meio aos doentes de câncer e enfermeiros, enquanto celebrava uma missa na capela do Hospital da Divina Providência, na capital de El Salvador.

DORCELINA DE OLIVEIRA FOLADOR

Nasceu em vinte e sete de julho, de hum mil novecentos e sessenta e três (1963), em Guaporema, estado do Paraná (PR). Chegou a Mundo Novo – Mato Grosso do Sul (MS), em mil novecentos e setenta e seis (1976), com onze anos de idade. Iniciou sua atuação na Pastoral da Juventude no ano de mil novecentos e oitenta (1980). Em mil novecentos e oitenta e sete (1987), ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, candidatando-se no ano de hum mil novecentos e oitenta e oito (1988), à vereadora.
Professora, poeta, artista plástica, em hum mil novecentos e oitenta e nove (1989) começou a colaborar com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), chegando à direção estadual do Movimento e atuando como repórter popular do seu Jornal. Ajudou a fundar também a Associação Mundonovense dos Portadores de Deficiência Física (AMPDF).
Depois de novamente candidatar-se a vereadora em hum mil novecentos e noventa (1992), e a Deputada Estadual em hum mil novecentos e noventa e cinco (1995), foi eleita prefeita de Mundo Novo para o mandato de hum mil novecentos e noventa e sete (1997), a dois mil (2000). Seu mandato foi interrompido em trinta de outubro, de hum mil novecentos e noventa e nove (1999), às vinte e três horas, quando foi assassinada na varanda de sua casa.

FRANCISCO ALVES MENDES FILHO

Seringueiro desde criança, dedicou praticamente toda a sua vida em defesa dos trabalhadores e povos da floresta. Participou da fundação dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia e Xapuri, além da fundação do Partido dos Trabalhadores do Acre, e do Conselho Nacional dos Seringueiros.
Reuniu em sua luta o trabalho sindical, a defesa da floresta e a militância partidária, tendo sido o seu trabalho reconhecido internacionalmente, sendo várias vezes premiado, inclusive pela Organização das Nações Unidas (ONU), que o distinguiu como um dos mais importantes defensores da natureza, no ano de hum mil novecentos e oitenta e sete (1987).
Através de sua luta pela implantação das reservas extrativistas, Chico combinava a defesa da floresta com a reforma agrária reivindicada pelos seringueiros, contrariando grandes interesses, principalmente os interesses de latifundiários e da União Democrática Ruralista (UDR).
Em vinte e dois de dezembro, de hum mil novecentos e oitenta e oito (1988), aos quarenta e quatro anos de idade, Chico Mendes foi assassinado na porta de sua casa.

MARÇAL TUPÃ-i

Índio Guarani. Nasceu em hum mil novecentos e vinte e quatro (1924), e foi assassinado na aldeia de Campestre, município de Antonio João, Mato Grosso do Sul, em vinte e cinco de novembro de hum mil novecentos e oitenta e três (1983), aos cinqüenta e nove anos de idade.
Marçal, cinco dias antes de ser morto, havia recusado uma oferta de dinheiro para facilitar a retirada dos índios Kaiowá, da área Pirakuá.
Em julho de hum mil novecentos e oitenta (1980), leu uma mensagem para o Papa João Paulo II, em sua primeira visita ao Brasil, no Amazonas. Na carta falava da tristeza sentida pelos índios, “pela morte de líderes assassinados friamente por aqueles que tomam o nosso chão”.

GALDINO JESUS DOS SANTOS

Liderança do povo Pataxó e Hã-Hã-Hãe, nasceu em hum mil novecentos e noventa e dois (1952), na Bahia. Na madrugada do dia vinte de abril, de hum mil novecentos e noventa e sete (1997), Galdino, quarenta anos de idade, dormia sob um abrigo de usuários de ônibus da 703/704 - via W-3 Sul, em Brasília – DF, quando foi alvo de um dos crimes mais bárbaros e torpes de que se teve notícia na capital federal e no País.
Passageiros de veículos que transitavam pelo local, com muito custo conseguiram apagar o fogo que lhe ardia em todo o corpo, Galdino deu entrada agonizante mas ainda consciente, no Hospital Regional da Asa Norte. Completamente cego devido às queimaduras nas córneas, conseguiu se identificar para a equipe médica e indicar a localização de seus companheiros. Antes de entrar em coma, perguntou repetidas vezes: “POR QUE FIZERAM ISSO COMIGO?” Galdino achava que havia sido atingido por um coquetel molotov.
Para todos, o choque maior veio poucas horas depois, com a descoberta feita pela polícia: o fogo havia sido ateado às suas vestes por um grupo de cinco rapazes de classe média alta, entre 17 e 19 anos, a título de “brincadeira”.
Dias depois, o menor Gutemberg, participante do atentado, confessava: o grupo fizera uso de dois litros de álcool combustível, comprados cerca de duas horas antes do crime, especificamente para efetuar a "brincadeira".
Com queimaduras em 95% do corpo, o que lhe comprometeu a integridade e o funcionamento dos órgãos internos, Galdino não resistiu e faleceu às duas horas da madrugada, do dia vinte e um de abril (Dia do Índio).
Galdino Jesus dos Santos era indígena do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, que vive no sul da Bahia. Ocupava a função de conselheiro em sua comunidade. Chegara em Brasília no dia dezesete de abril, como parte de uma delegação composta por oito lideranças de seu povo. Com o acompanhamento da assessoria jurídica do Secretariado Nacional do CIMI, eles cumpririam a partir do dia vinte e dois de abril, uma intensa agenda de reuniões com procuradores da República, parlamentares e membros do alto escalão do Ministério da Justiça e da Fundação Nacional do Índio (FUNAI).
O objetivo era buscar apoio para a solução de um imbróglio judicial criado pelo Juízo da Vara Federal em Ihéus - BA, que impedia o cumprimento de uma decisão do Tribunal Regional Federal (TRF), da 1ª Região em Brasília, que meses antes havia reconhecido à sua comunidade o direito de posse provisória sobre uma área de cinco fazendas encravadas em terras indígenas.
Diferentemente do que fora planejado, no dia vinte e dois de abril Galdino fazia a sua viagem de volta, para ser enterrado.

PE. RODOLFO LUNKENBEIN

Sacerdote salesiano, nasceu no dia primeiro de abril, de hum mil novecentos e trinta e nove (1939), em Doringstadt na Alemanha Ocidental. Veio para o Brasil em hum mil e novecentos e cinqüenta e oito 1958. Tinha 37 anos e era diretor da Missão Salesiana de Meruri, no estado de Mato Grosso. Foi assassinado no dia quinze de julho, de hum mil novecentos e setenta e seis (1976), quando a aldeia dos índios Bororo, em Mato Grosso, foi atacada por sessenta fazendeiros armados. Queriam vingar-se dos indígenas por causa de problemas de terra.
Juntamente com Pe. Rodolfo, foi assassinado também o índio Simão, e feridos outros tantos.
Rodolfo havia vivido toda sua vida em meio aos índios, procurando, com eles, resgatar a esperança de vida da tribo. De fato, antes de sua chegada à aldeia, as mulheres Bororo já não queriam gerar filhos, decretando, desse modo, o desaparecimento da tribo. Já fazia seis anos que não nascia uma única criança. Contudo, na missa de funeral de Rodolfo e do índio Simão, já se podia contar numerosas crianças.

PE. VICENTE CAÑAS

Tinha quarenta e oitenta anos de idade quando morreu. Nasceu em Albacete, Espanha, no dia vinte e dois de outubro, de hum mil novecentos e trinta e nove (1939), e veio para o Brasil em hum mil novecentos e sessenta e cinco (1965). Foi assassinado em abril de hum mil novecentos e oitenta e sete (1987), num barraco à beira no rio Juruena, Mato Grosso, por defender os direitos dos índios à sua terra, constantemente invadida por madeireiros e latifundiários.
Ele trabalhou inicialmente com os índios “beiço de pau”, após uma terrível epidemia que assolou esse grupo. Depois, com os Paresi, Miky, e desde hum mil e novecentos e setenta e sete (1977), assistia os Enawenê-Nawê, vivendo como eles.

DOROTHY STANG

Nascida em sete de junho, de hum mil novecentos e trinta e um (1931), na cidade de Dayton, no Estado de Ohio, Estados Unidos. Dorothy veio para o Brasil em hum mil novecentos e sessenta e seis (1966). Fazia parte de uma congregação internacional da Igreja Católica – Irmãs de Notre Dame de Namur – que tem como princípio ajudar os mais pobres e marginalizados.
Sua primeira experiência foi em Coroatá (MA), onde acompanhou o trabalho dos agricultores nas comunidades eclesiais de base. Com o passar do tempo, o povo já não tinha onde plantar e precisava se submeter aos mandos e desmandos dos latifundiários. Diante da situação, muitos migraram para o estado do Pará e Dorothy acompanhou esse movimento. Aos setenta e três anos, voz baixa e mansa, andava sempre sorridente e determinada.
A Irmã Dorothy Stang foi assassinada com sete tiros, aos setenta e três anos anos de idade, no dia doze de fevereiro, de dois mil e cinco (2005), às sete horas e trinta minutos da manhã, em uma estrada de terra de difícil acesso, a cinqüenta quilômetros da sede do município de Anapu, no Estado do Pará, Brasil.
Essa breve biografia dos mártires aqui citados, dão uma clara idéia das razões pelas quais eles não deverão ser esquecidos: o profundo engajamento e compromisso com as lutas a favor dos mais necessitados, oprimidos e excluídos – os mártires das lutas sociais e politícas, eles que são certamente, mártires da fé.

Proª Maria Aparecida Gonçalves

Documentos Institucionais:
Arquivo da Diocese de Rondonópolis-MT.
Arquivo do jornal A Tribuna de Rondonópolis.

FONTES ONLINE:
http://arlindo_correia.tripod.com/101201.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Santo_Dias_da_Silva (Santo Dias)
http://www.acidigital.com/fiestas/quaresma/quaresma.htm
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=8388 (Margarida Maria Alves )
http://www.catolico.org.br/santo_do_dia/santo.php?codigo=198
http://www.cf.org.br/natureza.php
http://www.cimi.org.br/?system=news&action=read&id=2020&eid=257
http://www.pimenet.com.br/noticias.inc.php?&id_noticia=6656&id_sessao=2
http://www.torturanuncamais.org.br/mtnm_mor/mor_mortes_exilio/mor_tito_lima.htm
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/documents/hf_jp-ii_let_01101999_elderly_po.html

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