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A RUSGA

domingo, 9 de novembro de 2008 ·

A RUSGA(Mato Grosso-1834)

A Regência no Brasil, que durou de 1831 a 1840, foi uma conseqüência da abdicação de D. Pedro I. Durante esse período, dois grupos políticos dominavam a vida pública nacional, embora, na verdade, essa predominância tenha se estendido durante todo o Segundo Reinado, até 1889, quando da proclamação da República. De um lado os progressistas (mais tarde, Partido Liberal), aliados do regente padre Feijó, e de outro os regressistas (depois, Partido Conservador), facção política composta na maioria por portugueses que desejavam a volta do ex-imperador. Ideologicamente, essas duas correntes políticas tinham pouca diferença entre si, mas a ambição pelo poder as mantinha separadas, em constante pé de guerra.
Nas províncias, seus adeptos agrupavam-se sob nomes diversos. No Mato Grosso não acontecia coisa diferente, e por isso os liberais davam a si mesmos a denominação de “Sociedade dos Zelosos da Independência”, enquanto os conservadores preferiam intitular-se como “Sociedade Filantrópica”. Os membros dessas duas associações disputavam ferrenhamente o poder local, e foi nessa busca obsessiva pelo “direito” de mandar em tudo e em todos, que eles protagonizaram um capítulo sangrento da história mato-grossense. A professora Elizabeth Madureira Siqueira, doutora em Educação, Mestre em História e integrante do Conselho Diretor da Fundação da Universidade de Mato Grosso, esclarece em seu livro “A Rusga em Mato Grosso”, que:

“A Sociedade Filantrópica desejava recolocar no trono D. Pedro I, assim como ver mantido no poder político da província do Mato Grosso o grupo que tradicionalmente vinha conduzindo a política, e que, naquele momento, estava simbolizado pelo então presidente Antônio Corrêa da Costa, nomeado por D. Pedro I. A Sociedade dos Zelosos da Independência era responsável pela aglutinação de forças políticas de tendência moderada, uma vez que esta não concordava com as idéias republicanas (...) Almejava destituir do governo da província de Mato Grosso o grupo político que há anos a dirigia, e em seu lugar colocar os liberais”.

Segundo os relatos da época, os integrantes da Sociedade dos Zelosos da Independência desejavam tomar o poder das mãos de seus adversários, e com esse objetivo planejaram uma revolta com início marcado para a madrugada do dia 30 de maio de 1834. Ao tomar conhecimento desse plano, o Conselho de Estado pretendeu abortar o movimento elegendo, em 27 de maio, o também conselheiro João Poupino Caldas, tenente-coronel ligado aos Zelosos da Independência, para o cargo de presidente da província, mas essa providência não surtiu nenhum resultado prático.
Porque, na versão do historiador Estevão de Mendonça, em sua obra Datas Mato-grossenses, por volta das onze horas da noite do dia 30 de maio, data acertada antecipadamente para a eclosão da rebelião liberal, “se ouviu tocar rebate de cornetas e caixas de guerra, tiros de arcabuzes, e gritos de morram os bicudos. Na escuridão da noite apenas se ouviam barulhos de machados e alavancas arrombando as portas dos negociantes adotivos ali residentes”. “Bicudo” era o apelido depreciativo que os cuiabanos davam aos portugueses que moravam na cidade, e sua origem tem relação com Manuel de Campos Bicudo, bandeirante paulista e primeiro homem branco a chegar à região do estado de Mato Grosso. Foi ele quem fundou o arraial de São Gonçalo Beira Rio, por volta de 1673, no lugar onde atualmente se ergue a cidade de Cuiabá.
Os registros revelam que nesta noite, no Campo D’Ourique, onde agora está instalada a Assembléia Legislativa estadual, uma multidão revoltada ali se reuniu, e dali, incentivada pelo toque dos tambores e cornetas da Guarda Nacional, partiu pela rua Joaquim Murtinho em direção ao Palácio da Instrução, sede do Quartel dos Municipais, aos gritos de “Morram os bicudos pés de chumbo”, percorrendo depois outras ruas de Cuiabá disposta a atacar, ferir e até mesmo matar os portugueses encontrados pelo caminho. Segundo consta, mais de quatrocentos portugueses e estrangeiros, entre eles crianças, foram massacrados pelo populacho ensandecido.
O padre José de Moura e Silva, em “Aspectos Históricos de Mato Grosso”, relata que “O presidente Poupino Caldas, tentou conter a fúria da população enraivecida, mas nada conseguiu, a não ser que mais tarde o taxassem de traidor, por pertencer ao grupo liberal. Da mesma forma, os exaltados cuiabanos não ouviram os apelos do bispo D. José Antônio dos Reis, que de crucifixo na mão implorava o término da carnificina, mas de nada adiantaram seus apelos (...). Segundo Paulo Pitaluga Costa e Silva, em Breve História de Mato Grosso e Seus Municípios, ‘O principal chefe desse movimento nativista em Mato Grosso foi o médico cirurgião e botânico Antônio Luís Patrício da Silva Manso, na época cognominado ‘O Tigre de Cuiabá’. Antônio Pedro de Alencastro assumiu o governo da Província a 29 de setembro de 1834 e promoveu processo contra os criminosos da sedição mato-grossense”.
Em 04 de novembro de 1834, os jornais de Cuiabá informavam que “Atendendo à representação do Promotor Público Joaquim Fernandes Coelho, o Juízo de Paz do 1º Distrito iniciou ontem o Auto-sumário Crime para apurar as circunstâncias da rebelião armada que, na madrugada do dia 31 de maio, tomou de assalto prédios públicos, arrombou e saqueou casas comerciais e matou pelo menos 40 estrangeiros em Cuiabá. Antes mesmo da sentença, já estão presos no calabouço do Quartel da Guarda Municipal os cinco acusados pela Promotoria de liderar o movimento. São eles: o fazendeiro José Alves Ribeiro, o capitão da Guarda Nacional José Jacinto de Carvalho, o bacharel Pascoal Domingues de Miranda, o professor de filosofia Braz Pereira Mendes e o vereador Bento Franco de Camargo. As prisões teriam sido feitas ‘à ordem da regência e pelo povo em massa’, conforme justificou o novo Presidente da Província, Antônio Pedro de Alencastro. Os cinco ‘cabeças do movimento’, como diz a denúncia da Promotoria Pública, serão encaminhados para o Rio de Janeiro e julgados pelo Superior Tribunal de Justiça”.
Sobre esse julgamento, a professora Elizabeth Madureira Siqueira esclarece que o Auto-sumário Crime puniu apenas soldados e populares que participaram dos arrombamentos e saques. Dos cinco líderes presos e enviados ao Rio de Janeiro, José Alves Ribeiro e José Jacinto de Carvalho, retornaram inocentados a Mato Grosso. Os outros três foram soltos, sendo que Pascoal Domingues de Miranda ficou na cidade carioca.

Direitos autorais: FERNANDO KITZINGER DANNEMANN
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